Conhecer o Salmo 23 de cor não impede viver como se estivéssemos sozinhos
Há uma cena que se repete em qualquer sala de aconselhamento, e provavelmente também na sua sacristia. Alguém confessa o Salmo 23 de cor desde criança, “o Senhor é o meu pastor”, e no minuto seguinte descreve dias inteiros de solidão, como se ninguém cuidasse dela. Confessa que Deus cuida, e é consumida pela necessidade de controlar o futuro. Fala de contentamento, e vive comparando a própria vida com a do vizinho. Ora pela paz de Deus, e a mente segue inquieta, ocupada o dia inteiro com tudo que pode dar errado.
Essa distância entre a verdade que professamos e a realidade que vivemos por dentro é um dos maiores desafios da prática pastoral e do discipulado cristão. E é justamente nesse ponto que a proposta do conselheiro cristão David Powlison, conhecida como antissalmo (anti-psalm), se mostra uma ferramenta fecunda. Não se trata de acrescentar um texto ao cânon, nem de trocar os Salmos por um exercício de psicologia popular. O antissalmo é um recurso pastoral: toma a perspectiva de um salmo e a inverte, para tornar visível o que acontece no coração quando Deus desaparece do nosso horizonte.
O exemplo mais conhecido é o Antissalmo 23, construído por Powlison a partir do Salmo 23. No lugar do cuidado, do descanso, da direção, da proteção e da esperança que o salmo bíblico descreve, aparece a experiência de alguém sozinho, desprotegido, insatisfeito, inquieto, desconfiado e centrado inteiramente em si mesmo. Powlison usa essa inversão para mostrar duas maneiras de viver: uma ligada ao Deus que cuida, outra marcada pela sensação de estar por conta própria. A proposta serve a três campos que se tocam: a prática pastoral, o aconselhamento cristão e a espiritualidade devocional. Ajuda o pastor a ouvir melhor, o conselheiro a entender mais fundo as lutas humanas, e o cristão comum a reconhecer os próprios movimentos do coração diante de Deus.
Um Conselheiro Que Recusava Reduzir Pessoas a Diagnósticos
David Powlison (1949–2019) foi uma das figuras centrais do movimento contemporâneo de aconselhamento bíblico. Atuou como professor, escritor, editor do Journal of Biblical Counseling e diretor executivo da CCEF (Christian Counseling & Educational Foundation) entre 2014 e 2019. Sua produção procurou manter juntas três coisas que às vezes se separam: a centralidade das Escrituras, a pessoa de Cristo e uma compreensão genuinamente pastoral do sofrimento humano.
Um traço marcante da sua abordagem era a resistência a reduzir pessoas às próprias categorias diagnósticas. No ensaio Sane Faith in the Insanity of Life, Powlison apresenta pessoas identificadas com diferentes rótulos e problemas, e procura mostrar que, embora existam diferenças reais de intensidade e complexidade, as lutas descritas não são estranhas ao resto da humanidade. O aconselhamento cristão precisa reconhecer uma humanidade compartilhada e uma necessidade comum de Deus. Isso não significa negar a realidade das doenças, dos transtornos psicológicos ou a necessidade legítima de profissionais de saúde mental. Significa não deixar que uma pessoa seja reduzida àquilo que ela “tem”.
Para Powlison, a pergunta pastoral precisava ser mais ampla do que o sintoma. O que está acontecendo na vida dessa pessoa diante de Deus? O que ela deseja, o que teme, em que deposita esperança? O que está tentando controlar, o que considera indispensável, que interpretação faz do próprio sofrimento, que tipo de vida está tentando construir? São perguntas que conduzem àquilo que Powlison chama de coração: o centro motivacional da pessoa, onde desejos, crenças, afetos e escolhas se entrelaçam. Ele argumenta que seres humanos criam substitutos para Deus, pequenos deuses que passam a governar emoções, pensamentos, palavras e escolhas. É nesse terreno que o antissalmo ganha a sua força.
O Que É um Antissalmo
O antissalmo pode ser entendido como uma inversão interpretativa de um salmo bíblico. O Salmo 23 afirma que Deus é o Pastor, que não há abandono, que existe provisão, descanso, direção, restauração, presença no sofrimento, consolo, esperança, uma casa para onde o peregrino está sendo conduzido. O antissalmo pergunta: como seria a minha vida se eu vivesse como se nada disso fosse verdade? E dessa pergunta nasce outra narrativa, inteira, coerente por dentro: estou sozinho, ninguém realmente cuida de mim, nunca tenho o suficiente, não consigo descansar, preciso controlar a minha própria vida, não sei em quem confiar, estou sempre ameaçado, minha alma está quebrada, preciso me proteger, nada me satisfaz, a decepção me acompanha, não sei para onde a minha vida vai.
Powlison resume a função do Antissalmo 23 dizendo que ele descreve como a vida se sente e se apresenta quando Deus desaparece da nossa visão. É uma frase que vale reter com cuidado, porque o antissalmo não é uma lista de pensamentos negativos que se possa contornar com pensamento positivo. É uma interpretação teológica da experiência humana.
Duas Maneiras de Viver
O contraste que Powlison estabelece é mais profundo do que “pensamento positivo contra pensamento negativo”. São duas maneiras fundamentalmente diferentes de existir no mundo.
A primeira está no Salmo 23: o Senhor é o meu pastor. Ali a existência humana se compreende a partir da relação com Deus. A pessoa não é autossuficiente, é cuidada, guiada, restaurada, atravessa o vale acompanhada. Sua identidade e sua esperança não dependem exclusivamente da própria capacidade.
A segunda está no Antissalmo 23: estou por minha própria conta. Ali o eu se torna o centro da história, e a lógica se impõe por necessidade, não por escolha livre: se ninguém cuida de mim, preciso cuidar de mim; se ninguém me protege, preciso me proteger; se ninguém garante meu futuro, preciso controlá-lo; se ninguém pode me dar segurança, preciso construí-la sozinho; se ninguém pode dizer quem eu sou, preciso provar meu próprio valor.
É aqui que o antissalmo se aproxima da antropologia cristã clássica. O pecado não é apenas a transgressão de uma regra exterior. É também uma desordem do amor, uma tentativa humana de organizar a existência sem depender de Deus. Powlison chama essa dinâmica de formação de “pequenos deuses”: coisas boas, desejos legítimos, que passam a ocupar uma posição que só Deus deveria ocupar. Por isso o problema nunca é simplesmente “estou ansioso”. A pergunta que vale fazer é outra: o que preciso desesperadamente que aconteça para eu conseguir ficar em paz?
Do Sintoma ao Coração: o Antissalmo Como Ferramenta Pastoral
Aqui está uma das contribuições mais úteis dessa metodologia: o antissalmo funciona como instrumento de discernimento.
Imagine alguém dizendo “estou muito estressado”. A resposta pastoral mais fácil seria “você precisa descansar”. Mas o antissalmo permite perguntar por que essa pessoa não consegue descansar. Talvez a resposta seja “porque tudo depende de mim”. E daí surge a pergunta ainda mais funda: por que tudo precisa depender dela? Talvez apareça o medo de fracassar, ou a necessidade de aprovação, ou a crença de que perder o controle é perder a segurança, ou a convicção íntima de que ninguém fará tão bem quanto ela mesma. O sintoma conduz à história do coração.
O mesmo acontece com a ira. Alguém diz: “eu fico muito irritado quando as pessoas não fazem as coisas direito.” O aconselhamento pode perguntar o que essa pessoa deseja que aconteça quando fica irritada, e talvez a resposta seja “quero que as coisas sejam do meu jeito”. Ali está, de novo, um antissalmo em miniatura: eu quero fazer o que quero, quando quero, do jeito que quero. O problema deixa de ser apenas “controle da raiva” e passa a envolver autogoverno, expectativa, autoridade, desejo e confiança em Deus.
Essa abordagem não elimina técnicas práticas de manejo emocional, elas têm o seu lugar. Mas procura chegar à camada mais funda da pessoa, porque, com frequência, queremos resolver depressa aquilo que está visível: a pessoa ansiosa, fazê-la menos ansiosa; a pessoa irritada, ajudá-la a controlar a irritação; a pessoa compulsivamente conectada, reduzir seu tempo de tela; a pessoa deprimida, recuperar sua motivação. Tudo isso pode ter valor real. Mas Powlison convida a uma pergunta mais profunda: o que esses comportamentos significam? No terceiro artigo da série Sane Faith in the Insanity of Life, ele argumenta que os fatos não são negados, o comportamento é real, mas o que precisa ser investigado é o seu significado, o que ele revela sobre a maneira como a pessoa está interpretando e vivendo a própria existência. O comportamento é uma porta de entrada, não necessariamente o destino final do aconselhamento.
Um Cuidado Necessário: o Antissalmo Não É Acusação
Há, porém, um perigo real nessa ferramenta. Um pastor pode transformar o antissalmo em acusação: “você está ansioso porque não confia em Deus”, “você está deprimido porque está longe de Deus”, “você está sofrendo porque colocou o eu no centro”. Essas frases podem soar simplistas, cruéis e teologicamente inadequadas. A Bíblia conhece um tipo de sofrimento que não se explica assim. Jó sofreu. Os salmistas sofreram. Jeremias sofreu. Paulo sofreu. O próprio Cristo entrou fundo no sofrimento humano.
Por isso o antissalmo não deve ser usado para dizer “seu sofrimento é culpa sua”. Deve ser usado para perguntar como o coração está respondendo ao sofrimento, o que é uma pergunta bem diferente. O sofrimento pode não ter sido escolhido, mas no meio dele existem pensamentos, desejos, medos, esperanças e decisões que podem ser levados diante de Deus. O aconselhamento cristão não deve simplificar o sofrimento, deve interpretá-lo à luz da história bíblica e da graça.
O Salmo 131 e as Escadas Que Não Terminam
A mesma lógica aparece na leitura que Powlison faz do Salmo 131. Ali ele identifica uma relação entre orgulho, vontade própria e o ruído interior da alma. O salmo apresenta uma alma aquietada; a leitura inversa deixa ver uma alma dominada pela necessidade de controlar, conquistar, adquirir e satisfazer os próprios desejos. Powlison relaciona esse orgulho a diferentes “escadas para lugar nenhum”: a da realização, que promete que, quando eu conseguir aquilo, finalmente vou ter valor; a da aquisição, que promete segurança quando eu possuir tal coisa; a da aprovação, que promete descanso quando aquelas pessoas reconhecerem meu mérito; a do controle, que promete paz quando eu conseguir organizar tudo.
O problema de toda escada assim é que nenhuma termina. A alma continua subindo, e continua inquieta. O Salmo 131, ao contrário, apresenta a imagem de uma criança que descansa nos braços da mãe. A quietude ali não nasce da capacidade de controlar tudo, nasce da confiança. Talvez a pergunta certa, então, não seja apenas “por que estou tão inquieto”, mas “que escada estou tentando subir agora”.
O Antissalmo na Era das Telas
Essa reflexão ganha um relevo particular no ambiente digital, que pode intensificar experiências muito parecidas com as que o Antissalmo 23 descreve. A pessoa sente que está por conta própria, ao mesmo tempo em que está permanentemente conectada. Sente que a própria vida nunca é suficiente, enquanto observa sem parar o que os outros possuem. Sente que está ficando para trás, acompanhando uma sucessão interminável de conquistas alheias. Sente que precisa fazer mais, enquanto recebe estímulos e demandas o dia inteiro.
A cultura digital não criou essas disposições do coração, elas são antigas, mas encontra nelas um ambiente particularmente favorável para amplificá-las: a comparação, a busca por aprovação, a distração, a ansiedade, a fragmentação da atenção. Por isso o antissalmo pode se tornar também uma ferramenta de discernimento cultural. A pergunta deixa de ser só “o que está acontecendo dentro de mim” e passa a ser “que práticas estão formando aquilo que acontece dentro de mim”. Que hábitos alimentam a minha inquietação, que conteúdos alimentam a minha inveja, que plataformas reforçam a minha necessidade de aprovação, que padrões de consumo me fazem sentir insuficiente, que hábitos digitais dificultam o meu silêncio diante de Deus. A questão pastoral não é demonizar a tecnologia. É discernir a sua capacidade de formar desejo.
Praticando o Antissalmo na Devoção Pessoal
Talvez o uso mais simples e acessível do antissalmo seja a devoção pessoal, e ele se organiza em quatro movimentos naturais.
O primeiro é ouvir o salmo com calma: ler devagar, observar o que o texto diz sobre Deus e sobre você, notar as promessas, os verbos, os movimentos da própria oração. O segundo é identificar o contraste, perguntando como seria a vida se você acreditasse no oposto do que o texto afirma. Se o salmo diz que Deus guia, pergunte como você vive quando acredita que precisa encontrar sozinho o próprio caminho. Se diz que Deus é o pastor, pergunte como você vive quando se considera responsável por pastorear a própria vida. O terceiro movimento é reconhecer onde esse antissalmo aparece de fato em você, nas preocupações, no casamento, no trabalho, na relação com dinheiro, no uso das redes, na criação dos filhos, na vida ministerial, na necessidade de reconhecimento. E o quarto, o que dá sentido a todos os outros, é retornar ao evangelho. O exercício não termina no diagnóstico. Termina na esperança. O antissalmo revela; o salmo reconduz; e Cristo restaura.
Da Autoconsciência à Graça
O propósito do antissalmo não é deixar o cristão cada vez mais consciente dos próprios defeitos. É criar as condições para uma confissão mais honesta e uma dependência mais profunda da graça. Quando reconheço “estou tentando controlar tudo”, posso confessar: Senhor, eu não sou Deus. Quando reconheço “preciso desesperadamente da aprovação das pessoas”, posso confessar: Senhor, tenho procurado nos outros o que só em ti se encontra. Quando reconheço “estou sempre comparando a minha vida”, posso confessar: Senhor, tenho dificuldade de receber a minha vida como dádiva. Quando reconheço “estou vivendo como se estivesse sozinho”, posso voltar à frase de sempre: o Senhor é o meu pastor. Não se trata de descobrir o antissalmo para ficar preso nele. Trata-se de descobri-lo para voltar ao Pastor.
Cristo Como Resposta ao Antissalmo
Aqui está o centro propriamente cristão de toda a proposta, porque Powlison não termina no autoconhecimento. Ele volta a Cristo.
Na leitura que faz do Salmo 23, Jesus cumpre uma dupla função. Primeiro, Cristo entrou no vale: conheceu o sofrimento, a rejeição, a solidão, a ameaça da morte. Experimentou aquilo que o antissalmo descreve na sua forma mais profunda, e ainda assim não abandonou o Pai. Powlison afirma que Cristo entrou no vale da sombra da morte e enfrentou o mal em favor do seu povo, que a bondade e a misericórdia de Deus o acompanharam, e que a vida venceu. Segundo, Cristo é o Pastor. Não apenas um modelo de confiança que podemos imitar, mas aquele em quem de fato confiamos: ele restaura, guia, chama, conduz, permanece. Por isso o antissalmo não precisa ser a nossa identidade definitiva. A história não termina em “estou sozinho”. Termina em “tu estás comigo”.
O Que Isso Muda na Prática
Para quem pastoreia, a proposta ensina a ouvir além do comportamento, perguntando não só o que a pessoa faz, mas o que esse fazer está dizendo; a levar a sério a experiência subjetiva antes de corrigi-la, porque mesmo quando a interpretação está equivocada, a dor é real; a conectar a luta humana à história bíblica inteira, e não usar a Bíblia só como fonte de versículos de conforto; a fazer do aconselhamento um encontro com Cristo, e não apenas a produção de pessoas emocionalmente mais funcionais, porque, como diz Powlison, o Pastor chama a pessoa para um relacionamento contínuo de falar, ouvir e caminhar com ele; e a evitar a solução superficial, porque “ore mais”, “tenha mais fé” ou “descanse” podem ter o seu lugar, mas o cuidado pastoral precisa alcançar o coração e as interpretações que o habitam.
Para quem aconselha, o antissalmo pode funcionar como um mapa inicial de perguntas que se sucedem naturalmente: o que aconteceu, o que você sentiu, o que você pensou que aquilo significava, o que você queria que acontecesse, do que você tem medo de perder, o que está tentando controlar, onde deposita a expectativa de felicidade ou segurança, o que o evangelho revela sobre essa realidade, e que resposta concreta de fé pode nascer daí. Esse caminho evita dois reducionismos ao mesmo tempo: o de tratar a pessoa como um cérebro com sintomas, e o de tratá-la como alma pecadora que só precisa de repreensão. Ela é uma pessoa complexa, criada à imagem de Deus, afetada pelo pecado, marcada pelo sofrimento, necessitada de graça e alcançada pela obra de Cristo.
E para a vida cristã comum, talvez a lição mais simples seja também a mais funda: maturidade não significa nunca sentir ansiedade, medo, inveja, orgulho ou desejo de controle. Significa aprender a reconhecer essas experiências e levá-las à presença de Deus. O cristão maduro não é aquele que nunca escreve um antissalmo por dentro. É aquele que consegue perceber, “meu coração está escrevendo um antissalmo agora”, e então pergunta o que o evangelho diz sobre isso. É uma espiritualidade de discernimento, não de negação. Não é preciso fingir estar em paz. Dá para dizer, com igual honestidade, “estou inquieto”, “estou com medo”, “estou com inveja”, “estou tentando controlar”, “estou cansado”, “estou decepcionado”, “estou vivendo como se estivesse sozinho”. E então ouvir de volta: eu estou com você.
Voltar ao Pastor
O antissalmo é uma ferramenta pequena, mas pastoralmente poderosa. Ele ajuda a perceber que existe uma diferença entre conhecer uma verdade e viver a partir dela. Dá para conhecer o Salmo 23 e ainda assim viver como se estivéssemos sozinhos. Dá para conhecer o Salmo 131 e continuar alimentando uma alma inquieta. Dá para conhecer a soberania de Deus e continuar tentando controlar todas as coisas. Dá para confessar que Cristo é suficiente e seguir procurando nos outros, no dinheiro, no desempenho, na aprovação, no consumo ou nas telas aquilo que só Cristo pode oferecer.
O antissalmo ajuda a colocar isso em palavras, a ouvir a narrativa escondida do coração. Mas essa não é a última palavra. Powlison insiste que o antissalmo não precisa contar a história final; ele só se torna a nossa realidade quando construímos a vida sobre uma mentira. A verdade mais profunda é que Cristo continua sendo o centro da história. Por isso a finalidade do antissalmo não é nos deixar olhando para nós mesmos. É olhar para dentro o suficiente para perceber que precisamos voltar a olhar para Cristo.
O antissalmo diz: estou por minha própria conta. O Evangelho responde: eu estou com vocês todos os dias.
O antissalmo diz: nada é suficiente. O Evangelho responde: a minha graça te basta.
O antissalmo diz: preciso controlar a minha vida. O Evangelho responde: confia no Senhor de todo o teu coração.
O antissalmo diz: estou sozinho no vale. O Evangelho responde: tu estás comigo.
Talvez essa seja a grande contribuição pastoral de David Powlison: ensinar-nos a reconhecer a voz do coração quando Deus desaparece do nosso campo de visão, para sermos, então, conduzidos de volta à voz do Pastor. A maturidade cristã não consiste em nunca escrever um antissalmo. Consiste em reconhecê-lo, confessá-lo e voltar. Voltar à Palavra, à graça, à comunhão, à esperança, a Cristo. Voltar ao Pastor. Porque, no fim, a nossa alma pode escrever muitos antissalmos, mas eles não precisam ter a última palavra.
O Senhor é o meu pastor.
Você já percebeu, na sua própria vida, algum antissalmo sendo escrito em silêncio? Conte nos comentários.

Romildo Ricardo Ramlow é pastor na Igreja Evangélica de Confissão Luterana em Campo Mourão, Paraná. É casado com Samara e pai de Matias. Possui formação em Teologia, Serviço Social, Educação e Filosofia.
📚 PARA IR ALÉM: APROFUNDE SUA LEITURA
O Que Você Vê Quando Olha para Dentro?
O antissalmo ensina a nomear o que o coração sussurra quando Deus some do campo de visão. Mas nomear é só o começo. A pergunta seguinte é: com que olhos você aprende a olhar de novo, para si mesmo e para quem está do seu lado?

Uma Nova Visão é Powlison levando adiante exatamente esse trabalho, agora com o foco em como as Escrituras reconfiguram a maneira de enxergar pessoas, inclusive a que você vê no espelho. Ele insiste, ao longo do livro, que aconselhar bem não é aplicar categorias abstratas de personalidade ou diagnóstico, mas falar diretamente ao coração, com a linguagem concreta que a própria Bíblia usa. É leitura natural para quem aconselha, mas também para quem simplesmente quer aprender a interpretar a própria vida sem os filtros emprestados da psicologia popular ou do jargão terapêutico. O antissalmo revelou uma narrativa escondida. Este livro ensina a substituí-la por outra, construída sobre o texto bíblico.
Ver do jeito certo muda tudo o que vem depois.
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