Em 4 de novembro de 2025, o Dicastério para a Doutrina da Fé publicou uma nota doutrinal sobre os títulos atribuídos a Maria. O documento se chama Mater Populi fidelis, Mãe do povo fiel, e foi aprovado pelo papa Leão XIV em 7 de outubro. No número 22 há uma frase que merece ser lida devagar, porque não saiu de nenhum púlpito protestante: “é sempre inoportuno o uso do título de Corredentora para definir a cooperação de Maria”.

Sempre inoportuno. A nota explica por quê: o título corre o risco de obscurecer a mediação salvífica única de Cristo. Pede ainda especial prudência com o título de Mediadora. E reconhece, com franqueza, que Corredentora aparece no século XV e que João Paulo II chegou a usá-lo. Os católicos mais tradicionais reagiram com dureza, e o cardeal Fernández, prefeito do Dicastério, esclareceu depois que o “sempre” vale para o momento presente e que a nota não nega a doutrina da cooperação subordinada de Maria. Convém ler o documento com essa honestidade: ele regula o uso de um título, não condena uma devoção inteira.

Mesmo assim, a instituição acusada há cinco séculos de inflar Maria recomendou, em 2025, que um título mariano deixasse de ser usado. Duvido que a notícia tenha chegado à maior parte das conversas evangélicas sobre Maria, e isso diz muito sobre o estado delas: falamos de Maria quase só para recusar, e recusamos sem saber direito o quê.

Quero propor outro caminho. Sou protestante e não vou chamar católico de idólatra. A doutrina católica oficial distingue adoração de veneração, e essa distinção precisa ser levada a sério. Mas também não vou fingir que tudo o que se diz sobre Maria hoje estava nas páginas do Novo Testamento.

Quatro camadas que o debate brasileiro mistura

Toda discussão sobre Maria no Brasil costuma andar em círculos porque mistura quatro planos. Há a camada bíblica: o que os textos canônicos afirmam ou permitem inferir. Há a histórica, que pergunta quando uma ideia ou prática aparece e como se espalha. Há a dogmática: o que uma igreja tornou obrigatório para a fé dos seus membros. E há a devocional, o que os fiéis de fato fazem e a função que isso cumpre na vida deles.

Um exemplo mostra o estrago. O evangélico filma uma procissão, que é camada devocional, e conclui que o dogma católico ensina adoração a Maria, que seria camada dogmática. O católico responde citando o Concílio de Éfeso, do século V, para defender a Imaculada Conceição, de 1854. Cada um fala de uma coisa, e cada um sai convencido de que venceu o debate.

Três palavras também pedem separação. Intercessão é orar em favor de alguém, coisa que todo cristão faz. Invocação é dirigir-se a um santo já falecido pedindo que ele interceda. Mediação, no sentido forte, é a obra pela qual Cristo reconcilia Deus e a humanidade. A teologia católica distingue ainda latria, a adoração devida só a Deus, dulia, a veneração dos santos, e hiperdulia, a honra singular prestada a Maria. Com essas distinções em mente, a conversa pode seguir adiante com alguma aqualidade.

Encontro de Maria com Isabel

O que está escrito, e o que não está

Comecemos pelo texto. Paulo afirma que o Filho de Deus nasceu de mulher (Gálatas 4:4). Mateus e Lucas atestam a concepção de Jesus pelo Espírito Santo, sem relação com José (Mateus 1:18-25; Lucas 1:26-38). Isso pertence à fé apostólica e está nos credos antigos.

Lucas oferece o retrato mais amplo, e ele é altíssimo. Maria recebe graça, crê na palavra que ouve, chama a si mesma serva do Senhor, canta o Magnificat, guarda os acontecimentos no coração e aparece em Atos 1 no meio da comunidade que ora. Isabel a reconhece como mãe do Senhor (Lucas 1:43), e a própria Maria anuncia que todas as gerações a chamarão bem-aventurada (Lucas 1:48). Está na Bíblia que o evangélico leva para o culto, e é bem mais do que ele costuma ouvir sobre Maria em anos de frequência nas celebrações de sua denominação.

Agora a outra metade, com o mesmo rigor. Em todo o Novo Testamento não há uma única oração dirigida a Maria. Não há relato de cristãos pedindo a intercessão dela depois da morte. Não há afirmação de que tenha sido concebida sem pecado original, nem narrativa de sua assunção corporal, nem o título de rainha do céu, nem um tesouro de graças sob sua administração. Há, em sentido contrário, a afirmação de que existe “um só mediador entre Deus e os homens, o homem Cristo Jesus” (1 Timóteo 2:5), e a de que ele vive sempre para interceder pelos que por meio dele se aproximam de Deus (Hebreus 7:25).

É justo reconhecer os textos que a tradição católica mobiliza. Em Caná, Maria percebe que o vinho acabou e orienta os servos: façam o que ele mandar (João 2:1-11). Na cruz, Jesus entrega a mãe ao discípulo amado (João 19:25-27). Em Apocalipse 12, a mulher vestida de sol dá à luz o Messias. São textos densos e admitem uma leitura tipológica de Maria como figura da Igreja. O que nenhum deles faz é instituir uma prática. De uma tipologia possível não se extrai a obrigação de invocar alguém.

Desenvolvimento, não invenção

Aqui o evangélico apressado conclui que tudo foi inventado depois. A palavra está errada, e ela faz perder o debate. O que aconteceu foi desenvolvimento, documentável, com data e autor, e a história real é mais interessante que a versão de conspiração.

No século II, Justino Mártir contrasta Eva e Maria: à incredulidade de uma responde a fé da outra (Diálogo com Trifão, 100). Ireneu amplia a imagem, e em ambos Maria coopera pela fé enquanto Cristo permanece o novo Adão e o agente da salvação. No mesmo século circula o Protoevangelho de Tiago, texto apócrifo de onde vem boa parte das narrativas sobre a infância de Maria, o José idoso e a virgindade antes, durante e depois do parto. Sua antiguidade prova que o interesse por Maria foi precoce. Não prova a origem apostólica de cada detalhe.

E não havia unanimidade. Tertuliano parece tomar os irmãos de Jesus como irmãos de fato. Orígenes lê a espada anunciada por Simeão (Lucas 2:35) como uma dúvida que atingiria a própria Maria diante da cruz.

No século IV, com a ascensão do ideal ascético, a virgindade perpétua se torna dominante, e Jerônimo escreve contra Helvídio por volta de 383. Desse mesmo século vem a crítica mais útil de toda a história, formulada de dentro. Epifânio de Salamina combate um grupo que oferecia bolos a Maria e fixa a regra no Panarion (79): Maria seja honrada, mas só o Pai, o Filho e o Espírito Santo sejam adorados .

Maria acompanha Jesus no Calvário

Éfeso: o título que um protestante pode confessar

Em 431, o Concílio de Éfeso confirmou para Maria o título Theotokos, aquela que deu à luz Deus, contra Nestório. Esse eu confesso, e sei que isso incomoda parte da minha própria casa. Confesso porque o título afirma quem é Jesus, e não de onde vem a divindade dele: quem nasceu de Maria é uma só pessoa, verdadeiro Deus e verdadeiro homem. Negar que ela seja mãe de Deus, nesse sentido preciso, é dividir Cristo em dois. Éfeso é cristologia antes de ser mariologia, e por isso Lutero manteve o título sem dificuldade, e Calvino o aceitou em sentido cristológico.

Vale ver também o que Éfeso não fez. Não definiu Imaculada Conceição, não definiu Assunção, não definiu mediação mariana. O que veio depois do concílio foi a multiplicação de festas, hinos, igrejas e homilias. A primeira parte da Ave Maria junta duas frases de Lucas (1:28 e 1:42); a petição final, rogai por nós pecadores, tomou forma muito mais tarde. O rosário também cresceu aos poucos.

Tomás de Aquino e o dogma que veio depois

Há um fato que derruba a tese de um consenso ininterrupto desde os apóstolos. Tomás de Aquino, o maior doutor do catolicismo medieval, ensinou que Maria foi santificada depois de ter sido concebida, e argumentou que, se ela jamais tivesse contraído o pecado original, isso diminuiria a dignidade de Cristo como Salvador universal (Suma de Teologia III, q. 27, a. 2).

A posição de Tomás é incompatível com o dogma que Roma definiria quase seis séculos depois. A resposta católica à dificuldade veio com Duns Escoto, para quem Maria foi redimida de modo preventivo: a obra de Cristo a alcançou antes da queda, e por isso ela também precisou de salvação. Foi o caminho que Pio IX seguiu em 1854, na bula Ineffabilis Deus, ao declarar que Maria foi preservada de toda mancha do pecado original desde o primeiro instante de sua concepção. Em 1950, Pio XII definiu em Munificentissimus Deus que ela foi assunta em corpo e alma à glória celeste.

Entre um dogma e outro, de Leão XIII a Pio XII, o magistério usou algumas das formulações marianas mais expansivas da era moderna, com linguagem de dispensação das graças e de reparadora. Foi nesse ambiente que o título Corredentora pareceu plausível a muita gente. Depois a maré virou por dentro. O Vaticano II tratou de Maria dentro da constituição sobre a Igreja, evitou o termo e subordinou toda a função dela à mediação de Cristo. Em 1996, diante de um pedido para definir um dogma sobre Maria como Corredentora e Mediadora de todas as graças, o então cardeal Ratzinger, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, rejeitou a proposta, e em 2002 diria que a fórmula se afastava demais da linguagem da Escritura e dos Padres. A nota de 2025 recolhe esse percurso.

Veneração no papel, idolatria na prática?

A quarta camada é a mais delicada. A Igreja Católica não ensina que Maria seja deusa nem que uma estátua tenha poder próprio. O Segundo Concílio de Niceia, em 787, definiu que a honra prestada à imagem se dirige à pessoa representada. O Catecismo afirma, no parágrafo 971, que a devoção mariana difere essencialmente da adoração devida a Deus. Chamar de idolatria toda imagem numa casa católica é atacar uma posição que o interlocutor não defende.

O outro lado da honestidade também vem de dentro. O Diretório sobre piedade popular e liturgia, publicado pelo Vaticano em 2002, reconhece riscos de desvio na piedade popular, entre eles tratar objetos devocionais como talismãs. A distância entre a norma escrita e a prática vivida é diagnóstico da própria Igreja Católica.

Por isso o teste correto é funcional, e não verbal. De quem a pessoa espera o perdão? De quem espera proteção? Ela crê que pode se aproximar de Deus diretamente, por Cristo, ou sente que precisa contornar um Cristo distante recorrendo a uma mãe mais acessível? Quando a confiança última se desloca para a criatura, a palavra idolatria se justifica. Ela deve recair sobre atos concretos, nunca servir de carimbo sobre milhões de pessoas.

Santuário Nacional de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, considerada a maior Igreja Mariana do mundo

O silêncio que não herdamos da Reforma

Falta a parte que é sobre nós. Lutero chamava Maria de Mãe de Deus e escreveu em 1521 um comentário inteiro sobre o Magnificat, elogiando a fé e a humildade dela. Calvino considerava inconclusiva a tentativa de Helvídio de provar outros filhos de Maria a partir de Mateus 1:25. Zuínglio sustentava a virgindade perpétua. A Confissão de Augsburgo, no artigo 21, preserva a memória dos santos e a imitação da fé deles, recusando a invocação.

A Reforma não começou apagando Maria. Ela reordenou a devoção sob a Palavra e sob Cristo. O silêncio evangélico brasileiro veio depois, como reação: deixamos a mãe do Senhor inteira nas mãos do outro lado e passamos a reclamar de que ela está lá.

Vale a pergunta incômoda. Quantas pregações sobre o Magnificat você ouviu na vida? Alguma aula na sua igreja explicou por que a cristologia depende do título de Éfeso? Você sabe dizer o que confessa sobre Maria, ou só sabe dizer o que recusa?

Confessar, respeitar, recusar

Termino com uma posição em três movimentos.

Confesso que Maria é a mãe real de Jesus, que o concebeu virgem pelo Espírito Santo, que é mãe de Deus em sentido cristológico, bendita entre as mulheres e discípula exemplar da fé.

Respeito, sem impor, a virgindade perpétua. É tradição antiga, defendida por reformadores, e o texto bíblico não a prova nem a refuta de modo conclusivo. Quem crê nela não está fora da fé cristã, e ninguém pode convertê-la em artigo obrigatório.

Recuso a Imaculada Conceição e a Assunção como dogmas, porque lhes faltam base apostólica e necessidade cristológica. Recuso a invocação de Maria, porque no Novo Testamento não há mandamento, promessa nem exemplo dela. E recuso o título Corredentora, que o próprio Vaticano declarou inoportuno.

Toda a grandeza de Maria é recebida, e ela foi a primeira a dizer isso. “A minha alma engrandece ao Senhor” (Lucas 1:46): o centro do cântico é Deus, que olhou para a humildade da sua serva. Honrá-la bem é repetir esse movimento.

Um evangélico pode dizer, sem constrangimento, Maria, mãe de Deus? Quero ler a sua resposta, com argumento. Deixe nos comentários.


Rodomar Ricardo Ramlow é teólogo, escritor, professor e criador de conteúdos em textos e vídeos. Reside em Nova Petrópolis, RS. É casado com Débora, pai de Sophia e Henrique.


Brasil. Católico e evangélico. São todos cristãos? O evangelho que os dois lados confessam é o mesmo?

A conversa costuma terminar em Maria, porque a distinção entre veneração e adoração acalma muita gente e sugere que a distância é de tom e de devoção popular. Leonardo De Chirico, estudioso renomado tanto da teologia católica quanto da evangélica, segue adiante. Em Mesmas Palavras, Universos Distintos, ele examina a mariologia, a intercessão dos santos, o purgatório e a infalibilidade papal e conclui que, apesar do vocabulário comum, a teologia católica não é fiel ao evangelho, motivo pelo qual a Reforma ainda tem o que protestar. O subtítulo do livro faz a pergunta que muita família brasileira já carrega quando católicos e evangélicos dividem a mesa no domingo, e a resposta vem com argumento, doutrina por doutrina.

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