Sou pai de um menino de um ano, e talvez seja por isso que uma pergunta não me larga mais: que imagem de Deus meu filho vai construir a partir do jeito como eu falo com ele, corrijo, escuto, acolho? Não basta ser pai. Preciso aprender a ser também o amigo que sabe ouvir, apoiar, caminhar ao lado dele.

Ainda que ele seja pequeno demais para entender muita coisa do que hoje penso sobre isso, sei que, pouco a pouco, minhas palavras, atitudes e reações vão formando nele uma percepção sobre autoridade, amor, perdão, segurança e graça. Essa responsabilidade me assusta e, ao mesmo tempo, me move.

Foi nessa busca por orientação que encontrei Converse com seus filhos: educando na linguagem da graça, de William P. Smith. O livro acabou virando, para mim, muito mais do que uma leitura sobre educação de filhos: uma espécie de mentoria para aprender a falar com meu filho de um jeito que aponte para a graça de Deus, em vez de distorcê-la.

Por isso quero compartilhar essa leitura com outros pais. Não como quem encontrou uma fórmula para criar filhos que vão necessariamente permanecer na fé, mas como alguém que está aprendendo, já agora, que o jeito como falamos com nossos filhos pode abrir porta para o relacionamento, com eles e, por meio deles, com o próprio Deus.

Introdução

Há uma pergunta que deveria inquietar qualquer família cristã: o que vai acontecer com a fé dos nossos filhos quando eles crescerem e puderem escolher, por conta própria, se querem continuar na igreja?

Durante muito tempo, imaginamos que bastaria levar os filhos ao culto, matriculá-los na escola bíblica, ensiná-los a orar e transmitir os valores cristãos. Tudo isso tem seu lugar. Mas há uma dimensão da formação que se passa num terreno bem mais comum, e quase sempre despercebido: a conversa dentro de casa.

É nesse ambiente aparentemente banal, numa refeição, no carro, antes de dormir, depois de uma nota ruim, num conflito entre irmãos, quando o filho fracassa, mente, desobedece ou simplesmente conta o que aconteceu no dia, que nossos filhos aprendem não só o que pensamos sobre eles, mas também, sem que a gente perceba, o que pensamos sobre Deus.

William P. Smith vai direto a essa questão em Converse com seus filhos: educando na linguagem da graça, publicado pela Editora Fiel. Ele resume a tese do livro numa frase que vale reler duas vezes: “A forma como você fala com seus filhos hoje vai impactar seu relacionamento com eles amanhã.” Para Smith, a nossa fala tanto pode convidar o filho a um relacionamento maior quanto empurrá-lo para longe; mais do que isso, pode representar diante dele as próprias palavras de Deus, ou distorcê-las.

Uma geração que está fazendo novas perguntas

Não precisamos transformar isso em pânico, e seria ingênuo apontar uma causa única para o fato de tantos jovens deixarem a religião que receberam na infância. Uma pesquisa do Pew Research Center, com trabalho de campo em 2024 e cobrindo 36 países, encontrou que 21% dos adultos brasileiros já não se identificam com a religião em que foram criados, o que a pesquisa chama de religious switching, a migração entre a fé da infância e a identidade religiosa adulta.

No caso brasileiro, porém, o dado pede leitura cuidadosa: mudança religiosa não é sinônimo de abandono da fé. Boa parte dela acontece entre tradições cristãs diferentes, e não para fora do cristianismo. Na mesma pesquisa, 20% dos adultos brasileiros disseram ter sido criados como protestantes, enquanto 29% se identificam como protestantes hoje; ao mesmo tempo, 6% dizem ter sido criados como protestantes e não se identificarem mais assim.

Seria errado, então, reduzir esses números a uma explicação fácil: “nossos filhos estão deixando a igreja porque os pais não sabem conversar com eles.” O livro de Smith não autoriza essa conclusão. O que ele oferece é outra coisa, e talvez mais importante: uma pergunta que precisamos fazer a nós mesmos como pais cristãos.

Que tipo de experiência nossos filhos têm da graça de Deus quando ouvem a nossa voz? Essa pergunta muda a conversa.

A fé dos filhos não pode ser reduzida à frequência na igreja

Ensinar a fé e administrar o comportamento religioso do filho são coisas diferentes, e a diferença importa. Podemos ensinar nossos filhos a sentar durante o culto, decorar versículo, participar das atividades da igreja e responder certo às perguntas do catecismo. Tudo isso pode valer a pena.

Mas fica uma pergunta debaixo dessa: será que estão aprendendo a enxergar o evangelho no jeito como o pai e a mãe vivem e falam com eles? Porque o cristianismo não é simplesmente um conjunto de informações a ser transferido de uma geração para outra. A fé precisa ser encarnada na vida cotidiana, e a casa é um dos principais lugares onde essa encarnação acontece.

Não é acaso que Deuteronômio 6 trate a transmissão da fé como coisa do dia a dia mais banal possível: a Palavra deveria estar no coração e ser ensinada sentado em casa, andando pela estrada, ao deitar e ao levantar (Deuteronômio 6:6-7 ). A fé se dá no cotidiano, e o cotidiano é feito de conversa.

O que nossos filhos ouvem quando falamos com eles?

Imagine duas situações. Um adolescente chega em casa e conta ao pai que tirou uma nota muito baixa. A primeira resposta pode ser:

— Você nunca leva nada a sério! Eu já falei mil vezes que você precisa estudar. Desse jeito você não vai chegar a lugar nenhum.

Outra resposta poderia ser:

— Essa nota mostra que alguma coisa não está funcionando. Vamos pensar juntos no que aconteceu. Quero entender o que você está enfrentando e pensar com você no próximo passo.

As duas respostas lidam com a mesma realidade, mas comunicam coisas bem diferentes. Na primeira, o filho pode ouvir: “Meu valor está condicionado ao meu desempenho.” Na segunda: “Meu fracasso não me torna indigno de relacionamento. Podemos enfrentar isso juntos.” A diferença não está em ignorar o erro. A graça cristã não significa chamar o pecado de virtude, nem transformar toda consequência em ausência de disciplina. A diferença está em como a verdade é comunicada.

Smith dedica uma seção inteira do livro a isso, ao que ele chama a habilidade da honestidade, com capítulos como “Pense antes de falar”, “Mire no coração”, “Lidere com o seu pior pé na frente”, “Construa pontes com os seus fracassos” e “Espere que seus filhos cometam erros”. Vale se deter nesse último: os filhos vão errar, sempre, e é exatamente na hora do erro que as nossas palavras revelam mais do que imaginamos.

O problema não é apenas o que dizemos, mas o que representamos

Os pais ocupam uma posição única na vida dos filhos. Para uma criança, sobretudo nos primeiros anos, os pais são algumas das primeiras autoridades que ela conhece, e por isso o que dizemos sobre amor, perdão, justiça, culpa, arrependimento e aceitação pode moldar, de um jeito duradouro, como ela vai entender essas mesmas realidades mais tarde. Isso alcança até a própria compreensão de Deus.

Se a mensagem constante em casa é “você só é amado quando acerta”, fica difícil entender graça mais tarde. Se é “esconda seus erros para não me decepcionar”, a confissão vira ameaça em vez de alívio. E quando o fracasso é recebido com humilhação, o arrependimento aprende a se disfarçar de vergonha. Se nunca pedimos perdão aos nossos filhos, podemos falar muito sobre a cruz e, ao mesmo tempo, oferecer uma experiência doméstica em que adulto nenhum admite o próprio erro.

Por isso o livro também trata de arrependimento, de ouvir e levar as palavras de Deus, de falar verdade com amor. Smith não está oferecendo técnica de comunicação. Está encaixando a fala dos pais dentro da própria lógica do evangelho.

Nossos filhos precisam ouvir o evangelho também através de nós

Há algo bonito na proposta de Smith: pai e mãe não precisam ser perfeitos para falar a língua da graça. Pelo contrário. Pais que reconhecem os próprios pecados podem ensinar algo precioso aos filhos.

“Filho, eu errei.”
“Eu não deveria ter falado com você daquela maneira.”
“Me perdoe.”
“Eu estava irritado e descontei isso em você.”
“Vamos conversar novamente.”

Essas frases, ditas de verdade, formam mais do que muito sermão. Porque quando um pai pede perdão ao filho, ensina, sem discurso nenhum, que autoridade não precisa de infalibilidade para se sustentar, que a verdade dita não quebra o relacionamento, que pecado se confessa e perdão existe de fato. Em miniatura, é a lógica inteira do evangelho. Não à toa, a quarta parte do livro fecha perguntando por que, afinal, queremos viver perdoando.

E quando nossos filhos não querem conversar?

Nem sempre nossos filhos vão querer conversar. O livro abre a segunda parte, dedicada à esperança, com um capítulo chamado “Algumas vezes você não quer conversar”. É um título honesto. Há dias em que os pais não querem conversar, e há dias em que os filhos também não.

Às vezes o adolescente responde apenas:

— “Não.”
— “Nada.”
— “Estou bem.”
— “Não quero falar.”

E os pais ficam desesperados tentando arrancar alguma informação. Mas conversar com um filho não é extrair resposta, é construir relação. Talvez seja essa, aliás, uma das maiores urgências da família cristã hoje: recuperar a arte de conversar.

Não apenas perguntar “Você fez a tarefa?”, “Foi à igreja?”, “Estudou para a prova?”, “Arrumou seu quarto?”. Mas também: “Como você está?”, “O que está passando pela sua cabeça?”, “O que você acha disso?”, “Por que isso foi importante para você?”, “Você ficou triste?”, “Você tem medo de alguma coisa?”, “Como posso orar por você?”, “Quer conversar?”. E, às vezes, simplesmente: “Estou aqui.”

O encorajamento também é uma forma de discipulado

Smith dedica a terceira parte do livro àquilo que chama de “A habilidade do encorajamento”, com capítulos como “Quando devo encorajar?”, “O encorajamento leva muito tempo?”, “Substitua palavras negativas em casa e fora de casa”, “Procure o positivo na forma de semente” e “Seja encorajado quando você estiver cansado de encorajar”.

Vale perguntar que tipo de palavra domina em casa. Correção, cobrança, comparação, advertência? Ou também encorajamento? Nossos filhos, é bem provável, sabem de cor aquilo que fazem de errado. Mas sabem o que enxergamos de bom neles? Sabem que temos orgulho, que percebemos o esforço, que somos gratos por tê-los, que o valor deles não se mede em nota, desempenho esportivo ou comportamento? Sabem que podem fracassar e ainda ter lugar seguro na nossa presença?

A linguagem da graça não elimina a correção, transforma o jeito de corrigir.

O perigo de transformar a criação cristã em uma fórmula

Há ainda um alívio essencial nisso tudo: não somos os salvadores dos nossos filhos. Isso é libertador.

Podemos ensinar, orar, corrigir, conversar, pedir perdão, encorajar, apresentar Cristo, criar em casa um ambiente que convide o filho a conhecer e amar o evangelho. O que não podemos é produzir fé dentro do coração dele. A própria estrutura de Converse com seus filhos aponta para essa realidade quando dedica um capítulo à ideia de que “você conversa sem garantia nenhuma”.

Essa ideia evita dois erros opostos. O primeiro é a negligência: “não importa como eu fale, Deus cuidará dos meus filhos.” Não. Nossa responsabilidade permanece. O segundo é a culpa absoluta: “se meu filho abandonar a igreja, significa que fracassei como pai.” Também não. A Escritura não apresenta os pais como soberanos sobre a fé dos filhos. Nossa responsabilidade é ser fiel. O resultado pertence a Deus.

Por isso Converse com seus filhos não deve ser lido como mais um manual para fabricar “filho cristão perfeito”. É antes um recurso de comunicação fundado na graça, para ajudar os pais a refletir, dentro de casa, a graça que já receberam no evangelho.

Talvez nossos filhos precisem ouvir uma nova linguagem

O problema da transmissão da fé pode não ser apenas “como fazer nosso filho permanecer na igreja”. Talvez a pergunta certa venha antes: que experiência do evangelho ele está tendo dentro de casa?

Aprendem que Deus perdoa, mas nos ouvem perdoar de verdade? Aprendem que Cristo recebe o pecador e acolhe o quebrantado, mas encontram em casa um lugar onde a confissão é segura? Aprendem que a graça não condena quem está em Cristo, mas é isso que as nossas palavras, no dia a dia, transmitem?

É a força da imagem que o posfácio do livro usa: “Você é um megafone.” Um megafone não produz a mensagem, apenas a amplifica. Os pais não são a fonte da graça, a graça vem de Deus, mas a nossa fala pode ampliá-la diante dos filhos, ou distorcê-la.

Talvez precisemos começar hoje

Não é preciso esperar uma grande conversa sobre “fé”. Comece com uma conversa comum. Pergunte ao seu filho como foi o dia. Escute sem preparar de imediato uma resposta. Pergunte o que ele pensa.

Quando ele errar, corrija sem humilhar. Quando você errar, peça perdão. Quando ele acertar, diga que percebeu. Quando estiver cansado, não desista de conversar. Quando não souber o que dizer, ore.

E quando tiver medo do futuro espiritual dos seus filhos, lembre-se de que eles pertencem, antes de tudo, à providência de Deus, não ao controle dos pais.

A questão não é encontrar a fórmula que garanta que nossos filhos nunca abandonem a igreja. A questão é sermos pais que, em meio às imperfeições da vida familiar, procuram falar verdade e amor, arrependimento e esperança, correção e encorajamento, justiça e misericórdia. Porque, como sugere Smith, cada conversa pode se tornar uma oportunidade de relacionamento. E talvez esteja aí uma das grandes tarefas da família cristã hoje: não só ensinar aos filhos o que cremos, mas falar com eles de um jeito que deixe transparecer, nas nossas próprias palavras, a beleza da graça daquele em quem cremos.

Para continuar a conversa

Converse com seus filhos: educando na linguagem da graça, de William P. Smith, é especialmente oportuno para pais, pastores, líderes de ministério com famílias, professores e todos os envolvidos com a formação cristã de crianças e adolescentes. A obra se organiza em quatro movimentos, a visão, a esperança, a habilidade do encorajamento e a habilidade da honestidade, conduzindo o leitor da importância das conversas até aplicações concretas para o cotidiano familiar.

Mais do que oferecer técnica de comunicação, Smith convida a uma espécie de exame espiritual: quando nossos filhos escutam a nossa voz, que visão de Deus estão aprendendo? Vale responder essa pergunta antes que os filhos cresçam demais para ainda quererem conversar com a gente. É por isso, afinal, que vale começar essa conversa hoje mesmo.


Romildo Ricardo Ramlow é pastor na Igreja Evangélica de Confissão Luterana em Campo Mourão, Paraná. É casado com Samara e pai de Matias. Possui formação em Teologia, Serviço Social, Educação e Filosofia.


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Pais não são a fonte da graça, são o megafone dela. E um megafone amplifica o que passa por dentro, seja graça, seja vergonha, sem escolher

Converse com Seus Filhos não ensina técnica de comunicação genérica. William P. Smith divide o livro em quatro partes, visão, esperança, encorajamento e honestidade, e cada uma delas pega uma cena comum, a nota baixa, o silêncio do adolescente, o erro que o pai comete e precisa reconhecer, e mostra como a mesma situação pode comunicar “você só é amado quando acerta” ou “podemos enfrentar isso juntos”. A diferença nunca está em ignorar o erro. Está em como a verdade chega até o filho.

Para ensinar mais evangelho do que qualquer sermão bem preparado.


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