Paulo não estava procurando o candidato mais popular. Estava procurando o mais confiável. A diferença entre os dois é a diferença entre uma igreja saudável e uma igreja em risco
SÉRIE: A Escolha de Líderes na Igreja [Artigo 05]
Artigo 1: A Eleição Que Acontece nos Bastidores
Artigo 2: Quem Substituirá Judas Iscariotes?
Artigo 3: A Preferência da Maioria
Artigo 4: A Igreja Deve Ser Democrática?
Este é o quinto artigo de uma série de seis sobre como a igreja escolhe seus líderes. Nos anteriores, tratamos do candidato único, do sorteio de Matias, da multidão que escolheu Barrabás e da pergunta sobre democracia na igreja. Agora, voltamos ao que deveria ser o ponto de partida de tudo.
Se você pudesse assistir de fora aos processos de escolha de liderança em muitas igrejas evangélicas brasileiras, notaria algo curioso. As perguntas que geralmente se fazem sobre os candidatos giram em torno de coisas como: há quanto tempo é membro? Tem disponibilidade? É conhecido na comunidade? Fala bem em público? Já ocupou algum cargo antes? Tem influência? Tem estudo? Tem contatos?
São perguntas práticas. Algumas até razoáveis. Mas se você abrir o Novo Testamento e procurar o que Paulo exige de quem vai liderar a igreja, vai encontrar uma lista radicalmente diferente. E a diferença entre essas duas listas revela muito sobre onde estamos errando.
O Que Paulo Perguntaria
Duas passagens funcionam como filtro apostólico para a liderança na igreja: 1 Timóteo 3:1-7 e Tito 1:5-9. As listas são complementares e se sobrepõem em vários pontos. E o que mais impressiona nelas é o que está ausente.
Não há uma palavra sobre carisma. Não há uma palavra sobre capacidade oratória. Não há menção a tempo de igreja, influência social, poder econômico ou popularidade. Não há pergunta sobre quantas pessoas seguem o candidato, quantos eventos ele já organizou ou quão conhecida é sua família na comunidade.
O que Paulo exige é outra coisa. O presbítero ou bispo deve ser irrepreensível. Marido de uma só mulher. Sóbrio. Prudente. Respeitável. Hospitaleiro. Apto para ensinar. Não dado ao vinho. Não violento. Amável. Não ganancioso. Que governe bem a sua própria casa. Que tenha boa reputação entre os de fora. Que não seja um recém-convertido. Que não seja arrogante nem irascível.
Se tentássemos traduzir essas qualificações para a linguagem e os dilemas de hoje, a lista paulina diria algo mais ou menos assim: o líder deve ser íntegro, uma pessoa correta, honesta nas coisas que faz. Deve ser fiel ao cônjuge. Alguém atento, que não se deixa levar rapidamente pelas emoções, que seja cuidadoso com as pessoas e responsável diante de decisões importantes. Uma pessoa agradável, que gosta de estar com outras pessoas e que sabe acolher. Não pode ser alcoólatra ou dado a outros vícios. Não pode ser alguém contra quem pesem denúncias de violência doméstica, infidelidade, assédio, escândalos de corrupção e coisas semelhantes. Deve ser alguém cuja família não contradiga o que ele prega, não porque famílias sejam perfeitas, mas porque a forma como alguém trata os mais próximos diz mais sobre ele do que qualquer discurso. E também não é prudente que seja alguém muito novo na fé, porque liderança exige maturidade que só o tempo e a caminhada com Deus produzem.
Nem tudo isso está literalmente no texto de Paulo. Mas tudo isso está na direção do texto de Paulo. As qualificações que ele lista apontam para um padrão de vida que, transportado para o nosso contexto, inclui exatamente essas verificações.
Repare na ênfase: quase tudo é caráter. Quase tudo é modo de viver, não modo de falar. Quase tudo se verifica na vida cotidiana, não no palco. A única habilidade técnica mencionada é “apto para ensinar”, e mesmo essa depende mais de fidelidade doutrinária e clareza do que de eloquência.
Paulo não está procurando o candidato mais popular. Está procurando o mais confiável. Não o mais carismático. O mais íntegro.
O Filtro Que a Igreja Esqueceu
Quando a igreja substitui a lista de Paulo por suas próprias listas informais, o resultado é previsível. Pessoas são escolhidas por visibilidade, não por maturidade. Por disponibilidade, não por caráter. Por influência, não por integridade. Por capacidade de articulação política dentro da comunidade, não por vida familiar ordenada e reputação entre os de fora.
E quando o cargo vem antes do caráter, o dano é quase inevitável. Porque o cargo expõe. Amplifica. O que a pessoa já era em privado se revela em público com o tempo, e com poder. Se havia tendência ao controle, o cargo dá instrumentos para controlar. Se havia vaidade disfarçada de zelo, o cargo dá palco para a vaidade. Se havia ganância encoberta por linguagem de fé, o cargo dá acesso aos recursos. Se havia violência doméstica escondida pelo silêncio familiar, o cargo dá blindagem institucional.
Não é por acaso que tantos escândalos de liderança na igreja envolvem pessoas que nunca deveriam ter sido colocadas em posição de poder. O problema, em muitos casos, não começou depois que assumiram o cargo. Já existia antes. Mas ninguém perguntou. Ou perguntou e preferiu não ouvir a resposta. Ou ouviu e decidiu que outros critérios pesavam mais do que caráter. Ou pior, deram-lhe o cargo na esperança de que isso o mudaria.
Governe Bem a Própria Casa
Há uma frase de Paulo que merece atenção especial. Ele diz que o candidato à liderança deve ser alguém que “deve governar bem a sua própria família, tendo os filhos sujeitos a ele, com toda a dignidade. Pois se alguém não sabe governar sua própria família, como poderá cuidar da igreja de Deus?” (1 Timóteo 3:4-5, NVI).
Esse critério incomoda porque é verificável e porque mexe no que muita gente considera privado. A vida familiar de um líder não é assunto apenas dele. É assunto da comunidade que ele vai liderar. Não porque a igreja tenha o direito de ser invasiva, mas porque a forma como alguém trata as pessoas mais próximas, cônjuge, filhos, membros da própria casa, revela muito mais sobre seu caráter do que qualquer discurso público.
Líderes que são admirados pela comunidade e temidos pela família. Que pregam amor no púlpito e praticam autoritarismo em casa. Que são generosos em público e controladores em privado. Esse padrão existe. E existe, em parte, porque a igreja parou de perguntar o que Paulo mandou perguntar.
Um artigo anterior que publicamos neste blog, sobre a fala da pastora Helena Raquel nos Gideões, tocou exatamente nesse ponto: o corporativismo religioso que protege líderes abusadores em vez de proteger vítimas. O que estamos dizendo aqui é o passo anterior: se a igreja avaliasse caráter antes de dar cargo, muitos desses casos não chegariam a acontecer. Ou, ao menos, não aconteceriam sob o manto de autoridade eclesiástica.
A Tentação do Cargo
Há um lado dessa questão que poucos abordam com franqueza: por que certas pessoas querem o cargo?
Paulo começa a passagem de 1 Timóteo 3 dizendo que “se alguém aspira ao episcopado, excelente obra deseja.” Há, portanto, um desejo legítimo de servir na liderança. A aspiração em si não é pecado. O problema começa quando a aspiração é movida por algo que não é serviço.
Quão grande tentação ao nosso ego podem ser a bajulação e os elogios. Se um grupo “me quer”, então deve ser porque sou bom, melhor do que os outros. Paulo tinha a faca e o queijo na mão para formar seu próprio partido dentro da igreja de Corinto. Recusou. Porque entendia que a liderança cristã não existe para realizar quem lidera, existe para servir quem é liderado.
Quando alguém busca um cargo na igreja por necessidade de reconhecimento, por desejo de status, por vontade de poder, por insegurança que precisa ser compensada com influência, esse alguém já falhou no primeiro filtro paulino, mesmo que nenhum pecado visível esteja em jogo. Porque o problema não é comportamental apenas. É motivacional. E motivações erradas, com o tempo e com o poder, sempre produzem frutos visíveis.
O próprio Jesus enfrentou essa questão entre seus discípulos. Tiago e João pediram os melhores assentos no Reino. Jesus não os demitiu do grupo. Mas os confrontou: “Vocês sabem que aqueles que são considerados governantes das nações as dominam, e as pessoas importantes exercem poder sobre elas. Não será assim entre vocês. Pelo contrário, quem quiser tornar-se importante entre vocês deverá ser servo de todos” (Marcos 10:42-43, NVI). A liderança no Reino de Deus é a única que começa pelo rebaixamento voluntário. Se o candidato não está disposto a isso, não está qualificado, independentemente de qualquer outro mérito.
O Que a Igreja Pode Fazer Diferente
Se 1 Timóteo 3 e Tito 1 fossem levados a sério como filtro real, não como leitura devocional antes da votação, mas como critério efetivo de avaliação, os processos de escolha mudariam substancialmente.
A igreja discutiria o perfil bíblico da função antes de discutir nomes. Não ao contrário. Quando o nome vem antes do perfil, a comunidade tende a adaptar os critérios ao nome que já existe, e isso esvazia a lista paulina de toda força prática.
A comunidade perguntaria sobre vida familiar, sobre reputação fora da igreja, sobre temperamento, sobre relação com dinheiro, sobre como o candidato trata pessoas que estão abaixo dele em hierarquia social ou eclesiástica. São perguntas desconfortáveis. Mas são as perguntas de Paulo. E Paulo as fez antes de nós por uma razão: ele sabia que cargo sem caráter é receita para desastre. E quando um nome popular não atende a esses critérios, líderes maduros precisam ter a responsabilidade de dizer não. Isso exige coragem. Exige disposição para desagradar. Exige a convicção de que proteger a igreja é mais importante do que manter a paz superficial de uma assembleia que prefere não fazer perguntas difíceis.
E a comunidade como um todo aprenderia a valorizar caráter acima de carisma. A perguntar “como essa pessoa vive?” antes de perguntar “como essa pessoa fala?” A entender que o líder mais qualificado nem sempre é o mais visível, o mais articulado ou o mais disponível, mas o mais íntegro.
O Primeiro Filtro
A série inteira que estamos percorrendo, do candidato único ao sorteio, de Barrabás à democracia, gira em torno de processos. Mas nenhum processo funciona se o filtro que deveria vir antes de qualquer processo é ignorado.
Esse filtro é o caráter.
Antes de perguntar como escolher, a igreja precisa perguntar quem está qualificado para ser escolhido. E a resposta do Novo Testamento é clara, verificável e desconfortável: alguém cuja vida inteira, pública e privada, familiar e comunitária, financeira e relacional, sustenta o peso do cargo que vai receber.
1 Timóteo 5:22 encerra o assunto com uma advertência que deveria estar pregada na parede de toda sala onde se reúne um conselho de igreja: “Não se precipite em impor as mãos sobre ninguém” (1 Timóteo 5:22, NVI). Não se apresse. Não preencha a vaga por conveniência. Não escolha por pressão. Não dê cargo a quem não foi avaliado pelo único critério que Paulo considera inegociável.
Caráter antes de cargo. Sempre.
Sua igreja avalia caráter antes de dar posição de liderança, ou a avaliação acontece só depois que os problemas aparecem? Deixe nos comentários.
Você quer liderar. Mas sabe por quê?
Quando um dos maiores especialistas em liderança cristã do século XX abandonou o prestígio acadêmico para servir pessoas com deficiência intelectual, ele descobriu o que Paulo estava descrevendo em 1 Timóteo 3.

A maioria dos livros sobre liderança cristã ensina o que fazer. Nouwen escreveu sobre o que você é, e sobre o que te move quando ninguém está olhando. Em Nome de Jesus confronta as três forças que destroem líderes silenciosamente, muito antes de qualquer escândalo: a necessidade de parecer relevante, o vício de ser admirado e a sede de controlar. Se você chegou até o fim deste artigo e alguma coisa incomodou, este livro vai nomear exatamente o quê.
Poucas obras sobre liderança custaram tanto ao autor escrever. Isso aparece em cada página.
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