Lewis nunca escreveu um tratado sobre educação. Mas foi professor por trinta anos, e sua obra guarda uma pedagogia inteira, sustentada por uma visão integral da pessoa
Nas últimas décadas, o pensamento de C. S. Lewis tem despertado crescente interesse em diferentes áreas do conhecimento. Seus livros são amplamente estudados na literatura, na filosofia, na teologia, na apologética cristã e até mesmo na psicologia da religião. Um aspecto de sua obra, porém, permanece relativamente pouco explorado: sua contribuição para a filosofia da educação.
Essa lacuna é, no mínimo, curiosa. Afinal, antes de se tornar conhecido como autor de As Crônicas de Nárnia ou de Cristianismo Puro e Simples, Lewis foi, durante mais de trinta anos, professor de Literatura Medieval e Renascentista nas universidades de Oxford e Cambridge. Ensinar não foi uma atividade periférica em sua trajetória; foi sua principal vocação profissional. Seus escritos, suas conferências e seu testemunho como docente revelam alguém profundamente comprometido com a formação intelectual e moral de seus estudantes.
Talvez o maior desafio para compreender Lewis como educador seja evitar um equívoco recorrente: procurar em sua obra um método pedagógico ou uma teoria educacional sistemática. Lewis jamais escreveu um tratado sobre educação. Sua pedagogia encontra-se dispersa em ensaios, críticas literárias, correspondências, romances e conferências. Trata-se de uma pedagogia implícita, cuja unidade só pode ser percebida quando se identifica o fundamento antropológico que a sustenta.
Este ensaio parte precisamente dessa hipótese: toda pedagogia pressupõe uma determinada concepção de ser humano. Em outras palavras, antes de perguntar “como educar?”, é necessário perguntar “quem é a pessoa que será educada?” e “para qual finalidade ela deve ser formada?”. Essa perspectiva aproxima Lewis de um importante debate contemporâneo na filosofia da educação: toda prática educativa repousa sobre uma antropologia e uma teleologia, isto é, sobre uma compreensão da natureza humana e de seu fim último. É nesse horizonte que se pretende situar sua contribuição.
Toda Pedagogia Nasce de uma Antropologia
Um dos méritos da filosofia da educação contemporânea consiste em recordar que nenhuma proposta pedagógica é neutra. Toda prática educativa responde, explícita ou implicitamente, a perguntas fundamentais sobre a condição humana: quem é o ser humano, o que significa tornar-se plenamente humano e qual é a finalidade da educação. Essas questões atravessam a história da filosofia, de Platão e Aristóteles até os autores contemporâneos. Em tempos recentes, James K. A. Smith chamou atenção para esse aspecto ao afirmar que toda educação procura orientar nossos amores antes mesmo de transmitir informações. Aquilo que amamos molda aquilo que nos tornamos.
Essa intuição oferece uma excelente chave de leitura para a obra de Lewis. Embora raramente empregue a linguagem técnica da antropologia filosófica, ele nunca escreve sem pressupor uma determinada compreensão da pessoa humana. Seus personagens, seus ensaios e sua crítica cultural revelam constantemente que o ser humano é mais do que um organismo racional ou um produtor de conhecimento. É um ser capaz de imaginar, desejar, amar, contemplar, escolher e responder moralmente à realidade. Educar, portanto, não consiste simplesmente em desenvolver habilidades cognitivas. Significa formar pessoas.
A Imaginação como Dimensão Constitutiva da Pessoa
Entre as contribuições mais originais de Lewis encontra-se sua valorização da imaginação. Durante muito tempo, a tradição moderna separou razão e imaginação, atribuindo à primeira a verdade e à segunda apenas a fantasia. Lewis rejeita essa oposição simplista. No ensaio Bluspels and Flalansferes, ele propõe uma distinção que resume toda uma antropologia filosófica: se a razão é o órgão natural da verdade, a imaginação é o órgão do significado.
A imaginação não substitui a razão nem compete com ela. Ela torna possível perceber sentidos, reconhecer beleza, compreender símbolos e habitar perspectivas diferentes das nossas. Por isso Lewis atribui à literatura um papel educativo singular. Ao ler grandes obras, o leitor não apenas adquire informações; aprende a enxergar o mundo através dos olhos de outras pessoas e descobre horizontes que sua própria experiência jamais poderia oferecer.
Nesse sentido, a literatura educa porque combate uma das maiores enfermidades humanas: o fechamento sobre si mesmo. A imaginação amplia a realidade, torna possível o encontro com a alteridade, forma a sensibilidade moral e educa os afetos.
A Educação dos Afetos
Talvez o texto mais importante de Lewis para compreender sua visão de educação seja A Abolição do Homem. Ali ele critica modelos educativos que privilegiam exclusivamente o desenvolvimento intelectual, negligenciando a formação moral e afetiva. Quando a educação deixa de cultivar as disposições corretas da alma, produz indivíduos intelectualmente sofisticados, porém moralmente empobrecidos. Sua conhecida expressão “homens sem peito” descreve precisamente esse fenômeno. Não se trata da ausência de inteligência, mas da incapacidade de amar aquilo que merece ser amado.
Lewis compreende que entre a razão e os impulsos existe uma dimensão intermediária: os afetos, as virtudes, os hábitos e os desejos. Essa compreensão aproxima-se de uma longa tradição filosófica que remonta a Aristóteles, passa por Tomás de Aquino e encontra novos desdobramentos em autores contemporâneos que entendem a educação como formação integral da pessoa. Sob essa perspectiva, ensinar é também educar o coração.
Literatura como Formação Humana
Essa antropologia explica por que Lewis dedicou toda a sua vida ao ensino da literatura. Para ele, os clássicos não têm apenas valor histórico ou estético; participam da formação da pessoa. Ao entrar em contato com grandes narrativas, o estudante aprende humildade intelectual, percebe que não é o centro da história, descobre diferentes modos de compreender o mundo, aprende a dialogar com outras épocas e cultiva discernimento e imaginação moral.
Essa compreensão rompe frontalmente com modelos educacionais estritamente utilitaristas, nos quais a literatura é valorizada apenas enquanto instrumento para desenvolver competências linguísticas. Lewis acreditava que ler grandes livros significa tornar-se maior do que se era antes da leitura.
Universidade e Formação da Pessoa
Outro aspecto frequentemente negligenciado é a concepção lewisiana de universidade. Embora nunca tenha escrito uma filosofia sistemática da educação superior, sua atuação como professor revela uma profunda confiança na universidade como espaço de cultivo da inteligência, da tradição e da busca da verdade.
Lewis desconfiava de uma educação reduzida à formação de especialistas. Para ele, uma sociedade pode produzir excelentes técnicos e, ao mesmo tempo, fracassar na formação de seres humanos sábios. Esse diagnóstico se mostra particularmente atual. Vivemos numa época marcada pela abundância de informação e pela escassez de sabedoria. Nunca tivemos tanto acesso ao conhecimento, e nunca pareceu tão difícil responder para que educamos. Lewis recorda que a finalidade última da educação não consiste em produzir profissionais eficientes, mas pessoas capazes de reconhecer o verdadeiro, o belo e o bom.
A Antropologia Pedagógica de C. S. Lewis
Talvez seja precisamente aqui que se encontre a principal contribuição filosófica de Lewis para a educação contemporânea. Sua pedagogia não nasce de um método; nasce de uma antropologia. Antes de pensar em currículos, técnicas ou metodologias, Lewis pergunta quem é o ser humano.
E sua resposta é profundamente integrada. O homem é razão, imaginação, desejo, memória, afetividade e abertura à transcendência. Essas dimensões não competem entre si; constituem uma única realidade. Por isso, uma educação verdadeiramente humana deve formar todas elas.
A inteligência sem imaginação torna-se árida. A imaginação sem verdade transforma-se em ilusão. O conhecimento sem virtude produz manipulação. Os afetos sem orientação tornam-se instáveis. A educação, portanto, consiste em ordenar essas dimensões em direção ao florescimento da pessoa.
Considerações Finais
Talvez o maior legado educacional de C. S. Lewis não esteja em um método pedagógico específico, mas em sua insistência de que educar significa participar da formação integral da pessoa humana.
Num contexto em que a educação frequentemente se vê pressionada por demandas econômicas, tecnológicas e produtivistas, Lewis convida-nos a recuperar uma pergunta mais fundamental: que tipo de ser humano desejamos formar? Responder a essa questão exige recuperar uma antropologia capaz de integrar razão, imaginação, afetos, virtudes e transcendência.
Talvez seja justamente essa a maior atualidade de Lewis. Mais do que ensinar conteúdos, ele nos recorda que toda educação participa da construção de uma determinada visão de humanidade. E talvez seja precisamente por isso que sua obra continue a desafiar professores, filósofos e educadores do século XXI.
Você já pensou na educação que recebeu, ou na que oferece, a partir dessa pergunta: que tipo de ser humano ela está formando? Deixe nos comentários.
Leituras para quem deseja aprofundar o tema
As reflexões deste ensaio não pretendem esgotar a discussão sobre a contribuição de C. S. Lewis para a filosofia da educação. Representam antes o início de um itinerário de pesquisa: compreender de que maneira sua antropologia filosófica fundamenta uma concepção de formação humana e, consequentemente, uma proposta pedagógica. Como Lewis nunca escreveu um tratado sistemático sobre educação, reconstruir essa antropologia pedagógica exige não apenas a leitura de suas próprias obras, mas o diálogo atento com estudiosos que analisaram sua vida e seu pensamento.
Três livros são um bom ponto de partida. A Vida de C. S. Lewis: do Ateísmo às Terras de Nárnia, de Alister McGrath (Mundo Cristão), apresenta a trajetória intelectual e espiritual de Lewis, evidenciando como sua formação clássica, sua paixão pela literatura e sua conversão ao cristianismo moldaram sua compreensão da cultura, da educação e da formação da pessoa. C. S. Lewis: O Mais Relutante dos Convertidos, de David C. Downing (Editora Vida, 2006), ajuda o leitor a perceber como experiências pessoais, amizades intelectuais e o diálogo com os clássicos constituíram a visão de mundo que sustentaria toda a sua produção literária e acadêmica.
Por fim, a biografia de Roger Lancelyn Green e Walter Hooper, escrita por dois homens que conheceram Lewis pessoalmente, é praticamente indispensável para quem deseja compreendê-lo como professor, e não apenas como escritor. Ela permite conhecer em profundidade sua formação intelectual, sua carreira em Oxford e Cambridge, sua rotina acadêmica e seu compromisso com o ensino universitário. A edição brasileira, C. S. Lewis: Biografia autorizada e revisada, tem lançamento previsto pela Thomas Nelson Brasil para setembro de 2026.

Romildo Ricardo Ramlow é pastor na Igreja Evangélica de Confissão Luterana em Campo Mourão, Paraná. É casado com Samara e pai de Matias. Possui formação em Teologia, Serviço Social, Educação e Filosofia.
A escola pode formar pessoas brilhantes e ainda assim destruir a humanidade delas
Antes de pensar em currículos, técnicas ou metodologias, Lewis pergunta quem é o ser humano.

Em 1943, C. S. Lewis pegou um manual escolar comum, usado em salas de aula reais, e mostrou o que acontece quando se ensina uma geração inteira a tratar todo julgamento de valor como opinião pessoal. O resultado, três conferências depois, é o que ele chamou de “homens sem peito”: pessoas tecnicamente competentes, intelectualmente equipadas, mas incapazes de reconhecer o belo, amar o verdadeiro e sustentar qualquer convicção moral que custe alguma coisa. A Abolição do Homem desenvolve em menos de cem páginas o que o ensaio apenas nomeou. E o mais perturbador não é o argumento em si, é perceber que Lewis descreveu com precisão cirúrgica a educação que a maioria de nós recebeu, ou oferece, sem ter lido uma linha dele. Se a pergunta “que tipo de ser humano estamos formando?” te despertou, este é o livro para ser lido agora.
A finalidade última da educação não consiste em produzir profissionais eficientes, mas pessoas capazes de reconhecer o verdadeiro, o belo e o bom.
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