No texto anterior, contei sobre homens que tiravam o chapéu ao entrar num templo sem que houvesse regra alguma, e sobre adolescentes que se comportam na sala de aula exatamente como se comportariam num ônibus de excursão. Falei, ali, de uma “perda do senso de limiar”, e usei a expressão de modo intuitivo, confiando que a imagem do chapéu faria o serviço que uma definição faria.

Mas ficou uma dívida. O que é, exatamente, esse “senso de limiar”? Há nome para isso na tradição do pensamento? E, principalmente, por que insisto que essa perda é mais grave do que qualquer defasagem de conteúdo ou método?

Este texto paga aquela dívida.

O Que a Tradição Chama de Liminaridade

Começo por um mal-entendido que preciso desfazer, senão emprego a palavra errada a vida toda.

Existe, na antropologia, uma tradição sólida sobre limiares, e ela não é bem o que eu estava descrevendo. Arnold Van Gennep, no começo do século XX, estudou os ritos de passagem, aquelas cerimônias pelas quais uma pessoa deixa de ser uma coisa e passa a ser outra: a criança que vira adulto, o solteiro que vira casado, o vivo que é entregue aos mortos. Van Gennep percebeu que todos esses ritos têm três fases: primeiro a separação, quando a pessoa é retirada do seu lugar antigo; depois a margem, o entremeio, quando ela já não é o que era e ainda não é o que será; e por fim a reagregação, quando ela entra no novo lugar. À fase do meio, mais tarde, Victor Turner deu o nome que ficou: fase liminar, do latim limen, que quer dizer soleira, limiar, aquela pedra que marca a entrada de uma porta.

A liminaridade, então, é a experiência de estar no meio da travessia. É o noivo na véspera, que já não é solteiro e ainda não é marido. É um estado de suspensão, de ambiguidade, e Turner observou que ali, quando as hierarquias comuns afrouxam, nasce um tipo raro de comunhão entre iguais, que ele chamou de communitas.

Guardo tudo isso com respeito, mas preciso dizer com clareza: não é disso que eu estava falando. A liminaridade pressupõe que a pessoa sabe que há domínios distintos, e sente o peso de transitar entre eles. O que eu descrevi no primeiro texto é uma coisa anterior, e mais grave. Não é a dificuldade de atravessar o limiar. É a cegueira para o fato de que o limiar existe.

Se a liminaridade clássica é a experiência de estar na soleira, o que vivemos hoje é a perda da percepção de que há soleiras a cruzar. E não se pode viver o drama de uma passagem que não se percebe.

O Que É, Então, o Senso de Limiar

Feita a distinção, posso enfim definir o que quero dizer.

Chamo de senso de limiar a capacidade de perceber que espaços, tempos e relações diferentes reivindicam modos diferentes de presença. Não é a travessia. É a percepção de que há travessias a fazer. É o que faz o corpo saber, antes que a cabeça formule, que aquela sala pede uma postura que o ônibus de excursão não pedia.

O homem que tirava o chapéu ao entrar na igreja tinha esse senso no corpo. Não precisava de cartaz nem de advertência; alguma coisa nele reconhecia que ali era outro lugar, e que outro lugar pede outra presença. O adolescente que atravessa a porta da sala como quem não atravessou nada não tem esse senso. Para ele, estruturalmente, é o mesmo lugar. E se é o mesmo lugar, por que a postura mudaria?

Repare que não estou falando de obediência, e essa distinção é o coração de tudo. Desobedecer pressupõe que a regra foi percebida e depois recusada. O que observo é mais fundo: não há regra sendo recusada, porque não há sequer a percepção de que aquele lugar reivindica algo. Entre o homem de chapéu e o adolescente de hoje não se abriu um abismo de caráter, e seria injusto ler assim. Abriu-se um abismo de percepção. Aquilo que antes o corpo sabia sem que ninguém dissesse, hoje não é sabido nem quando se diz.

Três Coisas Que Não Existem Sem o Senso de Limiar

Se isso fosse só uma questão de boas maneiras, não valeria um artigo. O peso da coisa está em que três realidades muito maiores dependem, silenciosamente, dessa percepção. Sem ela, nenhuma das três se sustenta.

A primeira é a própria vida moral. Agostinho ofereceu uma das definições mais econômicas e exatas de virtude que já se escreveu: virtude é a ordem do amor, o ordo amoris. A alma virtuosa, para ele, não é a que ama muito nem a que ama pouco, é a que ama cada coisa na medida justa do seu valor. Amar demais o que vale pouco, ou de menos o que vale muito, já é desordem. Ora, perceba o que isso exige como pré-requisito: para dar a cada coisa a medida certa, é preciso primeiro perceber que as coisas têm medidas diferentes. E há uma região dessa percepção que é a que aqui me ocupa — a que se aplica não às coisas em geral, mas aos lugares, aos tempos e às relações que habitamos. O senso de limiar é a forma que o ordo amoris toma quando o objeto é o domínio habitado: é perceber que a sala de aula pede de mim uma presença que o corredor não pedia, que o velório reivindica um silêncio que a festa dispensa. Não é ainda saber como agir; é perceber que o lugar reclama um modo de estar antes que eu decida qual. Quando essa percepção se atrofia, o mundo achata. E há hoje uma máquina que o achata sem descanso. Numa mesma tela e num mesmo tamanho, o dispositivo entrega uma tragédia, uma piada e um anúncio, todos pedindo a mesma fração de segundo — e entrega o mesmo estímulo, no mesmo ritmo, esteja o corpo na sala, no velório ou no parque. Isso não ensina que nada importa. Ensina algo pior, na prática repetida mil vezes ao dia: que tudo importa igual, o que dá no mesmo que nada importar. É uma escola do ordo amoris às avessas — e é também, no fundo, uma escola que desensina o limiar, porque um mundo em que todo lugar entrega a mesma coisa é um mundo em que nenhum lugar reivindica coisa alguma.

A segunda é a autoridade legítima. No pequeno e temível A Abolição do Homem, C. S. Lewis descreveu o ser humano em três andares: a cabeça, que calcula; o ventre, que deseja; e, entre os dois, o peito, sede dos afetos educados, a capacidade de sentir admiração diante do nobre e repulsa diante do vil. Educar, dizia ele, sempre foi cultivar esse peito, ensinar a criança não só a saber que a coragem é boa, mas a senti-la como admirável. Sem esse andar do meio, sobram cabeças espertas e ventres famintos: os homens sem peito. E aqui está o elo que me interessa. Reconhecer autoridade, e note que digo reconhecer, não obedecer, não é ato do cálculo nem do apetite. É ato do peito, porque é uma forma de reverência, e reverência é a percepção de que algo diante de mim merece uma resposta que eu não escolho arbitrariamente. Uma geração sem peito formado não desobedece a autoridade; ela não a enxerga como categoria real. Não se respeita o que não se percebe como digno de respeito.

A terceira é a possibilidade mesma de educar. Hannah Arendt, num ensaio que continua insuperado sobre o assunto, disse que todo ato de educar equilibra duas responsabilidades: com a criança, que chega ao mundo como novidade, e com o mundo, que já estava aqui antes dela. Educar é um adulto assumir a responsabilidade de apresentar esse mundo mais antigo a quem acabou de chegar, não para prendê-lo no passado, mas para capacitá-lo a um dia renová-lo. É daí que vem a autoridade legítima do professor: não do poder sobre o mais fraco, mas dessa responsabilidade assumida. Arendt já via, na época dela, essa autoridade evaporando, e não porque os adultos tivessem virado tiranos, e sim o contrário: por escrúpulo, muitos recuaram de representar o mundo, e passaram a tratar a criança como se ela já fosse sócia adulta na definição das próprias regras. O efeito, avisava, não é a liberdade da criança, é o abandono dela, entregue sem mediação à tirania mais dura que existe, a dos pares e a do instante. E tudo isso, de novo, pressupõe o senso de limiar: só me disponho a prestar atenção séria a uma aula se percebo que aquela hora reivindica de mim algo diferente do que a hora anterior reivindicava.

Como Chegamos Aqui: o Achatamento do Mundo

Se as três coisas dependem do senso de limiar, a pergunta seguinte é o que corroeu esse senso.

Mircea Eliade passou a vida estudando como as culturas tradicionais organizavam a realidade. Ele mostrou que praticamente todas distinguiam entre o espaço sagrado e o espaço profano, entre o tempo sagrado e o tempo comum. O espaço profano é homogêneo, indiferenciado, um lugar igual a qualquer outro. O sagrado é qualitativamente distinto, marcado, cercado, tratado como diferente porque é diferente. Para o homem religioso das culturas antigas, dizia Eliade, o espaço não era liso: tinha centros, tinha direções, tinha lugares que valiam mais e lugares que valiam menos. Havia a soleira do templo, e cruzá-la significava alguma coisa. Essa diferenciação não era um detalhe da religião; era a forma pela qual o ser humano organizava a experiência básica de que alguns lugares e alguns momentos pesam mais do que outros.

O que Eliade descreve como a marca do homem moderno é justamente a dessacralização, o achatamento do mundo num espaço-tempo uniforme, onde nada é qualitativamente diferente de nada. Um lugar vale o outro; uma hora vale a outra. E o que interessa notar é que essa homogeneização, que Eliade via como um processo de fundo da modernidade, ganhou nas últimas décadas um motor que ele não chegou a conhecer. O algoritmo que organiza o que um adolescente vê não sabe onde ele está. Não distingue a sala de aula da igreja, nem o velório do parque. Entrega o mesmo estímulo, no mesmo ritmo, com a mesma promessa de recompensa, esteja o corpo daquele jovem onde estiver. O celular no bolso carrega uma atmosfera única para todo canto, e essa atmosfera disputa, e quase sempre vence, contra a atmosfera própria de cada ambiente que a pessoa atravessa. Eliade diagnosticou o mundo liso; o algoritmo é a máquina que o alisa a cada segundo.

Falta ainda uma peça, e talvez seja a que amarra tudo. Se o mundo perdeu o relevo, é porque perdemos aquilo que ensinava o relevo. Byung-Chul Han, em O Desaparecimento dos Rituais, observa que os ritos eram precisamente as arquiteturas que davam forma ao tempo. O rito é uma passagem encenada: marca um antes e um depois, separa um período do outro, transforma a mera sucessão de instantes numa sequência com limiares. Uma festa não é um dia qualquer, uma vigília não é uma noite qualquer, um rito de passagem faz de alguém outra pessoa. É o rito que ensina o corpo, pela repetição, que existem soleiras no tempo, e que atravessá-las significa algo.

O que Han chama de desaparecimento dos rituais é, então, o desaparecimento dessas soleiras. Quando as passagens deixam de ser encenadas, o tempo perde a articulação e se torna um fluxo contínuo, indiferenciado, um presente que não passa por nada, apenas escoa. E veja como isso completa o quadro: se o rito é a escola onde se aprende, no corpo e em comunidade, que há limiares a perceber, então uma cultura que dissolve os seus rituais é uma cultura que desmonta, ela mesma, o órgão do senso de limiar. Não é só que o mundo ficou liso por fora, como em Eliade. É que perdemos, por dentro, a prática que nos treinava a sentir onde o mundo tinha relevo. O adolescente que não percebe a diferença entre a sala e o ônibus não é um caso de má-criação. É o resultado previsível de uma vida com pouquíssimos ritos, poucos limiares encenados, poucas soleiras que alguém o ensinou a cruzar com o corpo.

Faço questão de uma ressalva, para o argumento não virar caricatura. Não estou dizendo que a perda dos rituais explique sozinha a crise da educação; as causas são muitas e pesam todas. O que sustento é mais modesto, e por isso mais difícil de derrubar: entre todas elas, há uma que age especificamente sobre a percepção de limiares, e é justamente essa que quase nunca aparece nomeada quando se discute educação no Brasil.

O Que Fazer, em Uma Palavra

As direções concretas eu já tracei no primeiro texto: os rituais de passagem deliberados, a formação do peito, a coragem adulta de representar o mundo, as estruturas comunitárias, o ensino explícito do que antes era implícito. Quem quiser o passo a passo encontra lá.

O que importa reter aqui é a razão profunda de por que esse trabalho ficou tão difícil, e o Han acabou de nos dar: não se trata de repor uma técnica, mas de reconstruir, de propósito, os ritos que uma cultura inteira desmontou. Aquilo que antes o mundo ensinava sozinho, por osmose, numa vida cheia de soleiras, agora precisa ser reencenado com intenção, porque a cultura ambiente dissolve soleiras a cada segundo. É mais lento, é mais árduo, e não há atalho. Onde o rito falhou, alguém precisa ter a coragem de encená-lo de novo.

Diferença Consagrada

Termino onde a filosofia toca a teologia, que é onde este argumento tem a sua última raiz.

A palavra hebraica para santidade é kadosh, e o seu sentido de fundo é separação: aquilo que é posto à parte, tratado de modo diferente porque é diferente. Ponha essa definição ao lado de tudo o que dissemos e veja o que aparece. O senso de limiar, essa capacidade humilde de perceber que um lugar não é igual a outro, é o mesmo órgão pelo qual a santidade se torna perceptível. São a mesma faculdade olhando para alturas diferentes: uma percebe que a sala de aula pede mais que o corredor, a outra percebe que há o que é santo. Se essa faculdade se atrofia por completo, a perda não é de boas maneiras. É da própria categoria pela qual se reconhece que algo possa ser sagrado. Numa realidade em que nada é diferente de nada, nada pode ser posto à parte, e o que não se põe à parte não se consagra.

É por isso que a perda do senso de limiar não é um problema de disciplina escolar, e não se resolve com uma lei. Uma sociedade que deixa de perceber que um lugar difere de outro está, sem saber, desaprendendo a própria gramática pela qual algo pode importar mais do que outra coisa. E onde nada importa mais do que nada, não há o que educar, porque educar sempre foi, antes de tudo, ensinar que há coisas dignas de atenção inteira. Reconstruir os limiares, então, é mais do que uma tática pedagógica. É devolver ao mundo o relevo sem o qual ninguém aprende a reverenciar coisa alguma, e essa é uma tarefa que nenhuma geração pode terceirizar para a seguinte.


Rodomar Ricardo Ramlow é teólogo, escritor, professor e criador de conteúdos em textos e vídeos. Reside em Nova Petrópolis, RS. É casado com Débora, pai de Sophia e Henrique.


Três palestras. Menos de cem páginas. A profecia mais exata do século sobre a alma que estamos formando.

Em A Abolição do Homem Lewis desenvolve por inteiro o que acontece com uma civilização quando decide que os afetos não precisam ser educados, que valores são projeções subjetivas e que basta formar a cabeça e alimentar o ventre. Ele chamou isso de: homens sem peito. Pessoas capazes de calcular tudo e reverenciar nada. Lewis escreveu isso analisando um simples livro escolar de gramática, muito antes de qualquer algoritmo existir, e ainda assim descreveu com precisão cirúrgica a alma que a cultura digital está produzindo agora. Quem terminou este artigo inquieto com o que está sendo perdido vai encontrar em Lewis não só o diagnóstico completo, mas a defesa mais lúcida já escrita de que existe uma ordem real, digna de reverência, que a educação tem o dever de transmitir.

Precisamos de adultos na sala que assumam a responsabilidade de apresentar o mundo para as novas gerações.


LEIA AQUI O ARTIGO Existe Pensamento Neutro? A Tese Radical de Roy Clouser Sobre Fé e Razão

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