Quando o pastor vira marca e o rebanho vira audiência, a Bíblia já tinha um nome para isso
Dois pastores marcaram minha adolescência e juventude. Tenho quase certeza de que eles nem sabem disso. Não eram famosos. Não apareciam na televisão. Não havia internet na época, e o conceito de influencer religioso ainda não tinha sido inventado. Não eram figurões com nomes estampados em capas de livros, nem conferencistas aplaudidos em mega eventos. Eram homens à frente de igrejas locais que percorriam estradas empoeiradas para atender mais de uma comunidade no mesmo final de semana. Pregavam em vários cultos seguidos, estavam presentes em programas que a maioria dos membros não valorizava, iam a hospitais visitar doentes, celebravam despedidas em velórios, levavam a Ceia do Senhor na casa de idosos que já não conseguiam se deslocar até a igreja.
Não eram perfeitos. Mas tinham algo que muitos dos nomes mais conhecidos do evangelicalismo brasileiro de hoje não têm: eles realmente pastoreavam alguém. Enxergavam os mais simples. Davam espaço para que membros participassem dos cultos e das liturgias, mesmo de forma desajeitada e imperfeita. Conheciam as pessoas pelo nome, não pela posição que ocupavam ou pelo dízimo que depositavam.
Sei que há milhares desses pastores vocacionados espalhados pelo Brasil. Eles seguem seu serviço anônimo, semana após semana, sem câmera e sem aplauso. O problema é que eles não são o rosto que o evangelicalismo projeta para fora. Quem aparece, quem repercute, quem viraliza, quem dá entrevista, quem vende livro, é com frequência um tipo completamente diferente de figura. E essa figura tem um problema sério: ela ostenta o título de pastor, mas deixou de fazer o que a palavra significa.
O Que Deus Disse Sobre Isso, Séculos Antes
Antes de qualquer análise do presente, é preciso abrir um texto. Não é de um crítico da religião. É de Deus mesmo, falando aos líderes de Israel através do profeta Ezequiel, numa passagem que a maioria das igrejas não lê em voz alta porque é incômoda demais.
Ezequiel 34:2-4: “Assim diz o Senhor Deus: Ai dos pastores de Israel que só cuidam de si mesmos! Não deveriam os pastores cuidar do rebanho? Vocês comem a gordura, vestem-se com a lã e matam os animais mais gordos, mas não cuidam do rebanho. Não fortaleceram as ovelhas fracas, não curaram as doentes, não enfaixaram as feridas, não trouxeram de volta as desgarradas, não procuraram as perdidas. Ao contrário, as governaram com dureza e crueldade.”
Pastores que comem a gordura, que extraem do rebanho em vez de servi-lo. Que vestem a lã, que constroem imagem e status à custa das pessoas que lideram. Que não fortalecem os fracos nem buscam os perdidos. Que governam com dureza o que deveria ser governado com serviço.
Não era descrição de uma anomalia rara. Era o padrão dominante da liderança religiosa daquele tempo. E o julgamento anunciado na sequência é severo: Deus diz que vai se voltar contra esses pastores e exigir deles o rebanho que maltrataram.
Jesus conhecia esse texto de cor quando disse, séculos depois: “Eu sou o bom pastor.” Não era apenas declaração de identidade. Era confronto deliberado com tudo que Ezequiel havia descrito.
As Três Tentações Como Espelho
Mateus 4:1-11 narra as tentações de Jesus no deserto, e quem conhece por dentro o ambiente pastoral evangélico brasileiro vai reconhecê-las. Não são apenas tentações históricas de Cristo. São o menu permanente oferecido à liderança religiosa de qualquer época.
A primeira tentação é a do pão: transformar pedras em alimento, usar poder espiritual para resolver a própria necessidade material. O evangelicalismo brasileiro produziu uma teologia inteira para justificar exatamente essa capitulação. A teologia da prosperidade inverte a lógica do Evangelho e faz do líder religioso o principal beneficiário do sistema que ele mesmo lidera. O pastor que vive num nível econômico incompatível com qualquer prestação de contas, que usa a generosidade do rebanho para custear ostentação pessoal, que prega abundância enquanto administra a escassez alheia, esse pastor cedeu à primeira tentação sem precisar do deserto para isso.
A segunda é a do espetáculo: atirar-se do pináculo do templo para que os anjos apareçam diante de todos. É a tentação de construir ministério sobre performance, de validar autoridade pela capacidade de produzir experiências que impressionem. Quando o culto se torna produção audiovisual, quando a atmosfera emocional é manufaturada sistematicamente para simular presença divina, quando o pregador confunde multidão com rebanho e audiência com comunidade, o espetáculo tomou o lugar do pastoreio. A produção substituiu a presença. E o que resta, quando as luzes se apagam, é um palco vazio e pessoas que não foram pastoreadas.
A terceira é a do poder: todos os reinos do mundo em troca de uma reverência. É a mais sutil. O pastor que não suporta ser questionado, que trata toda discordância como traição, que confunde sua autoridade com autoridade divina, que usa “não toque no ungido do Senhor” para blindar o exercício arbitrário do poder, esse pastor está servindo a algo que não é o Deus que ele anuncia. Construiu um reino. Talvez um reino grande, com muitos seguidores leais. Mas a lealdade que ele exige não é lealdade a Cristo, é lealdade a ele mesmo.
Jesus recusou as três. Por isso é o modelo. Por isso é o critério.
Quando a Igreja Vira Empresa
Há uma deformação mais discreta que as anteriores, mas igualmente corrosiva. É quando a lógica empresarial coloniza o pastoreio de tal forma que ninguém mais percebe a substituição.
Em muitas igrejas de grande porte, o líder principal opera segundo métricas de crescimento, gestão de marca pessoal, expansão de alcance e fidelização de base. O culto se torna produto. O membro se torna consumidor. O sucesso se mede em número. E o pastor que não entrega crescimento numérico começa a ser visto como pastor que falhou, pela sua própria congregação.
Esse modelo apaga silenciosamente uma diferença fundamental. A empresa descarta quem não performa. A comunidade vai atrás de quem sumiu.
A ovelha que some do rebanho, na lógica empresarial, é baixa aceitável. No Evangelho, é motivo para o pastor deixar as noventa e nove e sair à procura. Essa diferença não é detalhe operacional. É diferença de natureza. Quando ela desaparece, o que sobra pode ser uma organização religiosa bem-sucedida, mas já não é mais uma igreja no sentido que a Escritura usa a palavra.
O pastor que meus avós e minha mãe tiveram percorria estrada de terra para chegar a uma comunidade de algumas dezenas de pessoas no interior. Nenhuma métrica de crescimento justificaria aquela viagem. Mas havia ovelhas lá. E ele foi.
Lobos em Pele de Cordeiro: Aprendendo a Ver
Jesus não deixou a advertência sem critério prático. Em Mateus 7:15-16 ele diz: “Acautelai-vos dos falsos profetas, que se aproximam de vós disfarçados em ovelhas, mas por dentro são lobos vorazes. Pelos seus frutos os conhecereis.” Frutos, não tamanho de ministério, não nível de unção aparente, não capacidade de preencher arenas.
Alguns frutos são reconhecíveis sem precisar de nomes. Há o líder que organiza a vida espiritual da comunidade de tal forma que as pessoas precisam cada vez mais dele, não cada vez mais de Cristo. Não equipa para autonomia, constrói hierarquia de acesso ao sagrado, onde proximidade ao líder equivale a espiritualidade. Há o que é intocável dentro de sua própria estrutura: responde a questionamentos com intimidação espiritual ou exclusão social, tem conselhos e supervisões que existem no papel mas não funcionam na prática.
Há o que prega entrega e vive acumulação. Convoca o rebanho à generosidade enquanto seu próprio patrimônio dispensa explicação porque é “bênção de Deus.” A assimetria entre o que exige dos outros e o que pratica sobre si mesmo é, por si só, fruto visível. E há aquele cujos mais próximos, família, equipe, ex-funcionários, membros que saíram em silêncio, contariam uma história muito diferente da que seus seguidores distantes conhecem. O personagem público e o ser humano privado se tornaram pessoas distintas. Isso tem nome na Bíblia. Não é nome bonito.
João 10: O Único Critério que Importa
Depois de Ezequiel e das tentações, chegamos ao texto que é luz onde os outros foram espelho. João 10:1-18 é a declaração de Jesus sobre si mesmo como Bom Pastor, e funciona como critério permanente para avaliar qualquer liderança que se reivindica pastoral.
O Bom Pastor conhece as ovelhas pelo nome. Aqueles dois pastores que marcaram minha adolescência faziam exatamente isso. Sabiam quem estava passando por dificuldade. Sabiam quem havia faltado ao culto e por quê. Sabiam o nome das crianças, conheciam as histórias das famílias, reconheciam as vozes. Isso não é detalhe afetivo, é definição de pastoreio.
O Bom Pastor vai à frente. Não empurra o rebanho para onde ele quer chegar: caminha primeiro. Sua autoridade nasce do exemplo antes de nascer do cargo.
O Bom Pastor dá a vida pelas ovelhas. Aqui está a inversão mais radical de toda lógica de poder religioso: o pastor bíblico não extrai do rebanho, se doa ao rebanho. O modelo não é empresarial nem imperial. É cruciforme. E cruciforme é a última coisa que se parece com um pastor midiático acumulando seguidores e patrimônio.
O pastor assalariado foge quando vem o lobo, porque as ovelhas não são dele. Foge porque o custo de ficar superou o benefício de permanecer. O Bom Pastor fica. Fica porque as ovelhas são suas, não no sentido de posse, mas no sentido de amor que não calcula saída.
E então vem a frase que reposiciona tudo: “Eu sou o bom pastor.” Jesus não está apenas propondo um modelo a ser imitado. Está afirmando que ele mesmo é o Pastor verdadeiro, aquele de quem todo pastoreio humano é derivado, delegado e sempre parcial. Nenhum líder humano é o pastor. Todo líder humano é, na melhor das hipóteses, um subpastor: alguém que apascenta em nome de outro, sob a autoridade de outro, responsável perante outro.
Quando um líder age como se as ovelhas fossem suas, como se questionar sua liderança equivalesse a questionar Deus, como se lealdade a ele e lealdade a Cristo fossem a mesma coisa, ele usurpou um lugar que pertence apenas a Cristo. E isso, por mais que use linguagem cristã, por mais que cite versículos, por mais que produza resultados numéricos impressionantes, é uma forma de idolatria.
O Que Cada Um de Nós Pode Fazer
A crise de liderança pastoral não se resolve apenas por cima. Ela tem uma dimensão que passa por cada pessoa que frequenta uma igreja, que escolhe onde vai plantar raízes espirituais, que decide a quem vai dar autoridade sobre sua vida.
Um povo que aceita ser tratado como audiência, que troca discipulado por entretenimento religioso, que prefere líderes que prometem prosperidade a líderes que exigem santidade, que confunde o carisma de um pregador com a presença do Espírito, esse povo está alimentando o sistema que o maltrata.
João 10:27: “As minhas ovelhas ouvem a minha voz; eu as conheço, e elas me seguem.” A voz do Bom Pastor tem características reconhecíveis para quem aprendeu a ouvi-la. Ela aponta para Cristo, não para si mesma. Exige fidelidade à Escritura, não lealdade pessoal ao pregador. Produz liberdade onde poderia produzir dependência, constrói pessoas maduras onde poderia construir clientela fiel. E lidera para o sacrifício em vez de prometer escapar dele.
Quem aprendeu a reconhecer essa voz, na leitura da Bíblia, na oração, na comunidade de fé, consegue perceber quando está ouvindo outra coisa. Não por amargura, não por espírito de crítica permanente, mas por fidelidade ao único Pastor que nunca abandona o rebanho.
Há milhares de pastores anônimos percorrendo estradas empoeiradas neste exato momento. Servindo comunidades pequenas, visitando doentes, levando a Ceia a idosos, formando pessoas que jamais vão aparecer em estatística de megaigreja. Eles não estão na capa de nenhum livro. Não têm assessor de imprensa. Não cobram cachê para pregar.
Eles são o rosto do pastorado bíblico. E a melhor coisa que o evangelicalismo brasileiro pode fazer é parar de confundi-los com os outros.
Você já teve na sua vida um pastor que realmente pastoreou? Ou conhece de perto a distância entre o título e a função? Vale a conversa nos comentários.
O Caminho de Volta
Se você reconheceu no texto a diferença entre quem ostenta o título e quem vive a função, precisa de mais que indignação, precisa de ferramentas para resistir.

Em “O Pastor Descartável”, Marva Dawn e Eugene Peterson reconectam líderes com a identidade bíblica que a cultura empresarial e midiática apagou. Explorando Efésios, Romanos e as pastorais, eles treinam pastores como servos contraculturais do evangelho e não celebridades religiosas, não CEOs espirituais, mas subpastores que apontam para Cristo. Essencial para quem deseja recuperar (ou proteger) o chamado pastoral autêntico em meio à tentação permanente de transformar rebanho em audiência.
Resgate a visão bíblica antes que a cultura a substitua.
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