Jornada 52/31
Uma semana. Uma Palavra. Um passo.
“Tendo recebido o vinagre, disse Jesus: ‘Está consumado!’ E, inclinando a cabeça, entregou o espírito.”
João 19:30

Quitar uma dívida grande de uma só vez, não mais uma prestação, mas o total, tem algo quase físico: o peso sai dos ombros, a respiração muda de qualidade, dá para olhar em frente sem aquela sombra atrás. Mais estranho ainda é o caso de uma dívida que se sabe, com certeza absoluta, impagável, e que outra pessoa assume por inteiro, sem condições.
É exatamente o que se passa em João 19:30. Jesus está na cruz há horas, numa cena que João não suaviza, brutal, pública, humilhante. E então, numa voz que os outros evangelhos registram como um grito, ele diz uma só palavra em grego: Tetelestai. As traduções trazem “está consumado” ou “está acabado”, mas nenhuma alcança todo o peso do original. Tetelestai era o termo comercial da época para a quitação de uma dívida: quando o devedor pagava o que devia, o credor escrevia tetelestai sobre o documento, pago, quitado, encerrado. Nenhuma cobrança posterior teria validade. O assunto estava fechado.
Jesus não diz “acabou” como quem desiste; declara uma conclusão, uma obra terminada. A última palavra na cruz é de realização, não de derrota.
Resta saber o que exatamente estava sendo quitado. Paulo responde em Colossenses 2: Deus cancelou “a lista de decretos que havia contra nós e que nos era contrária; ele a eliminou pregando-a na cruz”. A imagem é a de um documento de dívida, cheio de acusações legítimas contra nós, pregado no madeiro junto com Cristo. Tudo o que o pecado deve à justiça de Deus, cada transgressão, cada idolatria, cada momento de indiferença ao que é sagrado, foi levado àquela cruz e ali liquidado. A dívida não foi reduzida nem parcelada; foi liquidada.
“…dívida foi liquidada”
O desconcertante está na fonte do pagamento: não fomos nós que pagamos, e sim outro por nós, pelo sofrimento do único que nada devia. Jesus, sem nenhuma dívida própria com a justiça de Deus, absorveu a dívida inteira de todos os que nele creem. Isaías 53 já antecipara: “o castigo que nos traz a paz estava sobre ele.” Na cruz, o castigo e a paz se encontram, e um carrega o que o outro precisava receber.
Então ele inclina a cabeça e morre, e João escolhe aqui um verbo incomum: Jesus “entregou” o espírito. Não lhe arrancaram a vida nem o venceram; ele a entregou, no controle até o fim, cumprindo por vontade própria o que viera fazer. A morte de Jesus não foi uma tragédia que lhe aconteceu; foi uma missão que ele levou ao fim.
Aqui a fé cristã encontra sua tentação mais persistente: viver como se a dívida ainda estivesse em aberto, como se fosse preciso fazer mais, provar mais, compensar mais para enfim ficar quite com Deus, como se o Tetelestai dependesse de um complemento nosso para valer.
Não precisa. A santificação, a obediência, o crescimento espiritual são reais e necessários, mas não entram como parcelas de uma dívida; são a vida de quem já foi quitado. Não se obedece para pagar, obedece-se porque o pagamento já foi feito; não se serve para merecer, serve-se porque a aceitação já veio. Entre esses dois modos de viver corre a distância que separa uma religião de ansiedade de uma fé de liberdade.
Tetelestai: está consumado, e a dívida não existe mais.
Passo de Discipulado
Esta semana, identifique uma área em que você ainda está “pagando”, tentando compensar uma falha antiga, buscando a aprovação de Deus pelo desempenho, carregando uma culpa que já foi perdoada. Escreva num papel a palavra Tetelestai, está consumado, pago, quitado, e ore: “Senhor, ajuda-me a viver como alguém cuja dívida foi paga, e não como quem ainda tenta quitar o que o Senhor já liquidou.”
Oração
Senhor Jesus, obrigado pela última palavra que disseste na cruz, que foi declaração de vitória, e não gemido de derrota. Obrigado porque a dívida que eu jamais pagaria foi quitada por ti, integralmente, sem parcelas. Perdoa-me por viver como se ainda devesse algo para merecer a tua presença. Ajuda-me a descansar no Tetelestai e a obedecer por gratidão, não por medo. Em nome de Jesus, amém.
Quero ir além: Colossenses 2:13–14
Na Cruz a Minha Dívida Foi Liquidada… para sempre.
Sim, você pode viver livre, como alguém cuja a dívida já foi paga.

John Stott escreveu A Cruz de Cristo como quem não conseguiu seguir em frente sem entender o que aconteceu naquela sexta-feira. Por que o inocente carregou a pena. Por que Deus não podia simplesmente perdoar sem sangue. Por que a substituição não é uma entre várias explicações da cruz, mas o coração de tudo. Ele escreve com o rigor de quem estudou cada texto e com a reverência de quem sabe que está pisando em terra santa. Quem lê este livro não sai com mais informação sobre a cruz. Sai adorando diferente.
Compreenda, de uma vez por todas, que você já pode descansar









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