A arrogância de estar com as lentes limpas e o revisionismo do nosso tempo
Quando levo textos de filósofos antigos para os meus alunos do ensino médio, a reação costuma ser uma mistura curiosa de fascínio e condescendência. É natural da juventude olhar para trás e pensar: eram geniais para a época deles, mas, coitados, não tinham a nossa ciência, a nossa tecnologia, a nossa visão de mundo. Faz parte de crescer achar que a roda foi inventada ontem, por nós. O problema não está no adolescente que pensa assim. O problema aparece quando essa mesma ingenuidade sai do pátio da escola e passa a governar a teologia, a academia e as discussões morais da vida adulta.
Neste terceiro e último texto sobre a degradação do nosso debate público, quero chegar à raiz intelectual que sustenta boa parte do revisionismo moderno. É a justificativa de fundo de quem deseja mexer nas pedras fundamentais da ética e da compreensão do ser humano, e ela vem embalada com uma sofisticação que seduz. Soa mais ou menos assim: durante milênios, a Igreja e a civilização leram a realidade de forma equivocada, cegas pelo preconceito, limitadas pela biologia que conheciam, presas a categorias antigas; só agora, com o avanço das ciências humanas, teríamos finalmente limpado a lente para enxergar a verdade.
Essa é, talvez, uma das afirmações mais arrogantes que o nosso tempo produz. E para desmontá-la vale recuperar um conceito que C. S. Lewis ajudou a tornar conhecido: o esnobismo cronológico.
O Mito da Lente Oculta
A manobra começa com o que eu chamaria de falácia da lente oculta. Quem revisa admite que o texto bíblico, ou o dado da própria Criação, parece dizer uma coisa, mas argumenta que a tradição inteira o leu através de uma lente distorcida, que teria escondido o significado verdadeiro, supostamente mais aberto e fluido do que se pensava.
Diz-se então que as ordens da criação, a diferença entre os sexos, a estrutura do matrimônio, a vocação do corpo, seriam apenas construções culturais a serem superadas. A promessa é sedutora: basta remover essa lente empoeirada da tradição e o objeto aparecerá como ele de fato é.
Só que aqui está o ponto cego dessa geração, e é justamente o esnobismo cronológico. Lewis descrevia essa atitude como a aceitação sem crítica do clima intelectual do nosso próprio tempo, junto com a suposição de que tudo o que ficou no passado está, só por ser passado, ultrapassado. É a crença de que o mero girar dos ponteiros nos torna moralmente superiores aos nossos avós.
Repare na assimetria. Olhamos para a Idade Média e identificamos seus vieses sem esforço. Olhamos para o século XIX e enxergamos suas limitações com clareza. Mas, quando se trata do nosso próprio século, tratamos o zeitgeist do século XXI como se fosse a realidade objetiva e definitiva, o ponto de chegada da história. Esquecemos que, daqui a cem anos, os nossos descendentes vão olhar para muitas das nossas certezas de hoje com o mesmo ar de quem descobriu que os antigos estavam errados. O relógio não vai parar em nós.
Qual é a Medida da Nossa Lente?
Existe uma pergunta que o debate honesto precisa devolver: se a lente dos antigos estava suja, quem garante que a lente moderna é limpa?
Quando a cultura contemporânea “relê” a moral cristã e conclui que o desejo interior do indivíduo é o único critério de verdade para a sua identidade, ela não está fazendo uma exegese mais profunda. Está adotando uma filosofia específica, a do eu expressivo, e lendo o texto por dentro dela. A lente moderna não é um vidro transparente. É um filtro fortemente colorido pelo secularismo, pela psicologia de massa e pelo individualismo radical. Ela também tem a sua época, os seus pontos cegos, os seus preconceitos, só que não os enxerga porque são os dela.
Daí um sinal de alerta que vale a pena manter aceso. Quando uma “nova leitura” da ética cristã se encaixa com perfeição nos aplausos das grandes empresas, nas pautas das redes e no consenso do mundo secular, é prudente desconfiar. Se o Espírito Santo parece, de repente, concordar exatamente com as bandeiras da sua própria bolha, há uma boa chance de que a voz que se está ouvindo não seja a de Deus, mas o eco do próprio tempo. A fé cristã não foi feita para ser assimilada pelo calendário.
Cultivar Não é Modificar a Semente
Em debates teológicos mais densos, e aqui toco na matriz do pensamento reformado e luterano, alguns tentam justificar a mudança moral apelando ao mandato cultural. O raciocínio é: Deus mandou o homem “cultivar” a terra, logo a Criação não é estática, ela pede desenvolvimento; alguns vão além e dizem que a própria Encarnação nos teria libertado das leis da natureza.
É um raciocínio engenhoso, e vale reconhecer o que ele tem de verdadeiro antes de apontar onde falha. Sim, o ser humano foi chamado a cultivar o jardim, a desdobrar as possibilidades da criação, a construir cultura. A tradição reformada, com Kuyper, levou isso a sério como poucas. Mas cultivar a terra não é o mesmo que alterar a estrutura da semente. Desenvolver uma civilização a partir da natureza não nos dá autoridade para reescrever a gramática da natureza humana. Uma coisa é fazer o trigo render mais; outra é decidir que o trigo agora será outra planta.
E há um argumento cristão que corre na direção contrária à que os revisionistas propõem. Quando o Verbo se fez carne (sarx, no original grego), ele assumiu a nossa humanidade física, biológica, concreta, tal como foi desenhada desde o princípio. A Encarnação é a mais alta afirmação de que a matéria, o corpo e os limites da criação são bons, e não uma massa disforme que possamos remodelar à nossa imagem. Usar a teologia da Encarnação para justificar a dissolução dessas fronteiras é virar o argumento do avesso: o texto que consagra o corpo criado passa a ser invocado para desfazê-lo.
O Antídoto: Submissão e Permanência

Ao longo destes três textos, percorremos um caminho. Começamos nas táticas que corroem a conversa pública, a complexidade vazia e o ataque pessoal. Passamos pela falsa neutralidade, aquela que suspende o juízo sobre o que já é claro e chama isso de prudência. E chegamos agora à raiz de tudo: a suposição de que somos a primeira geração a enxergar a verdade como ela é.
Qual é o antídoto? Eu diria que é a redescoberta da submissão. Não uma submissão cega, que desliga a inteligência, mas uma submissão racional e reverente diante do Criador, sustentada por uma mente que ama a clareza e não se deixa enganar pelo sofisma. Submeter-se, aqui, não é abdicar de pensar. É pensar até o ponto em que se reconhece uma ordem que não fomos nós que inventamos.
Se quisermos ser de fato úteis a um mundo que vive angustiado por não saber mais quem é nem para onde vai, não adianta oferecer a ele as mesmas incertezas fluidas do espírito da época. Isso ele já tem de sobra. O que podemos oferecer é chão firme. Ser a voz que, diante da arrogância do relógio, responde com a calma de quem se apoia em algo que não envelhece. A lente moderna tenta transformar a Escritura num espelho, onde o leitor contemporâneo só enxerga os próprios desejos refletidos de volta. O nosso trabalho, com firmeza cordial, é limpar o vidro e mostrar que ali não há um espelho, e sim uma janela, através da qual se contempla uma ordem boa que não fomos nós que criamos, e que por isso mesmo não nos cabe desfazer.
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Rodomar Ricardo Ramlow é teólogo, professor e criador de conteúdos. Reside em Nova Petrópolis, RS. É casado com Débora, pai de Sophia e Henrique.
Onde C. S. Lewis Aprendeu a Desconfiar do Próprio Século
O ateu mais brilhante de Oxford levou anos para admitir uma coisa: o problema não estava nos antigos. Estava na lente dele.

Surpreendido pela Alegria é a autobiografia espiritual de C. S. Lewis, o relato de como o ateu convicto que ele era foi, aos poucos, cedendo terreno até render-se à fé. É nessas páginas que nasce o esnobismo cronológico, a descoberta de que o passado não está desacreditado só por ser passado, e de que o clima intelectual de uma época é o que menos conseguimos enxergar por dentro. Mas o coração do livro é outro: uma saudade sem nome, que Lewis chama de Alegria, um desejo que nenhuma coisa deste mundo satisfaz e que, no fim, aponta para além dele.
Talvez você reconheça essa saudade antes mesmo de saber como ela se chama.
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