Repare no que acontece hoje quando alguém abre a boca sobre os assuntos grandes. Se você disser em público que tem dúvidas profundas sobre a moral, sobre a natureza humana ou sobre a fé, será quase na hora aplaudido pela sua “vulnerabilidade” e pela sua “mente aberta”. Agora experimente dizer o contrário. Diga que, sobre esses mesmos temas, você chegou a uma convicção sólida, que não está disposto a negociar. O clima muda no mesmo instante. A clareza vira arrogância. A convicção vira intolerância.

Quem passa os dias diante de mentes jovens percebe isso rápido, e a sala de aula de filosofia no ensino médio é um laboratório e tanto para observar o fenômeno. A nossa época inverteu os sinais. A dúvida, que sempre foi um estágio no caminho até a verdade, foi promovida a virtude final, um ponto de chegada em vez de passagem. Ser sofisticado, hoje, é viver em suspensão permanente de juízo, como se nunca decidir fosse a marca da inteligência madura.

Só que há um engano escondido nessa postura. Quando essa reverência à incerteza é transportada para o campo das verdades fundamentais e da ética cristã, a “neutralidade” para de ser sinal de sabedoria e passa a ser um método muito eficiente de capitulação. Rende-se o terreno sem que um tiro precise ser disparado.

O Charme do “Vamos Aguardar”

Diante das pressões para revisar a ética cristã sobre temas que permaneceram pacíficos por séculos, a reação de muitos não é o confronto, e também não é o exame cuidadoso. É o recuo, vestido de prudência. A fala soa piedosa e acadêmica ao mesmo tempo: “não vamos ser simplistas, é preciso dar tempo ao tempo, melhor suspender o juízo e aguardar para ver como o Espírito conduzirá a Igreja diante dessa nova realidade.”

À primeira vista, parece a atitude de alguém maduro, que não quer se precipitar. E aqui vale uma distinção que o resto do texto vai desenvolver: uma coisa é o trabalho honesto de quem estuda a fundo antes de concluir; outra, bem diferente, é usar o “vamos aguardar” como forma de nunca concluir nada. É desse segundo movimento que estou falando. Porque, em matéria daquilo que a revelação já tratou com clareza, a neutralidade é um mito.

Suspender o juízo sobre o que a Escritura já resolveu não é observação isenta. É uma tomada de posição disfarçada de não-posição. Quando você diz que o certo e o errado em questões fundamentais da vida humana estão “em aberto”, à espera de uma nova compreensão que a história ainda vai nos dar, você já decidiu. Decidiu que o texto bíblico e o peso de séculos de leitura não bastam para falar ao presente. A suspensão, aqui, não é neutra. Ela já é um veredito.

O Zeitgeist no Volante

O que acontece quando se adota essa postura de neutralidade diante de uma cultura que exige mudança? Você solta o volante. E a experiência mostra que, quando a Igreja solta o volante alegando que está “em oração e em observação”, não é o Espírito Santo quem assume a direção. É o zeitgeist, o espírito da época.

O zeitgeist é barulhento, está em todo lugar e não descansa. Ele molda as nossas intuições morais pelo entretenimento, pela academia e pela pressão social muito antes de percebermos que fomos moldados. Imaginar que dá para ficar num purgatório intelectual, só assistindo ao debate de camarote até a poeira baixar, é não ter entendido como o mundo funciona. A poeira não baixa sozinha. Alguém está soprando.

Se a bússola da revelação vai para o bolso sob a desculpa de que “ainda precisamos entender melhor as demandas modernas”, a direção acaba sendo ditada pela filosofia do eu expressivo que domina o nosso tempo, aquela que ensina que ser fiel a si mesmo é o valor mais alto que existe. Nesse cenário, a neutralidade não é o caminho para a verdade. É o tapete vermelho pelo qual a secularização entra pela porta da frente, e entra bem-vestida, com o nome de “atualização pastoral”.

A Dúvida Que Busca e a Dúvida Que Foge

Aqui é preciso resgatar uma distinção que a filosofia clássica sempre soube fazer: a diferença entre a dúvida que procura e a dúvida que se esconde.

A primeira é excelente, e a sala de aula vive dela. É a dúvida que pergunta porque quer resposta, o aluno que levanta a mão para contestar uma premissa porque deseja de verdade chegar ao fundo da questão. Essa dúvida é o motor do conhecimento, e sem ela não há filosofia nem teologia que se sustente. Duvidar, nesse sentido, é levar a verdade a sério.

A segunda é outra coisa, apesar de ser a mais celebrada hoje. Ela não pergunta para encontrar chão firme; pergunta para provar que não existe chão nenhum. É a dúvida usada como esconderijo. Mantém-se o assunto sempre “complexo”, “em debate”, “cheio de nuances”, não para investigá-lo melhor, mas para adiar sem prazo a responsabilidade de agir conforme aquilo que já está claro. Afinal, é muito mais cômodo dizer que “a questão ainda está sendo assimilada” do que olhar para uma exigência da cultura e responder, com gentileza e firmeza, “não”.

A Coragem de Ter Convicção

O mito da neutralidade tenta nos convencer de que afirmar uma verdade firme é o mesmo que abrir mão da empatia. Não é. C. S. Lewis e Timothy Keller, cada um a seu modo, mostraram que dá para amar o interlocutor, levar a sério a sua angústia e, ainda assim, não ceder um milímetro na doutrina. A firmeza no conteúdo e a ternura no trato não se excluem; caminham juntas quando a convicção é madura.

O amor cristão não exige que se valide o erro de quem amamos. Exige compaixão por quem erra, o que é bem diferente. E manter nítido o mapa daquilo que foi criado, sem rasurá-lo para agradar, é em si um ato de amor por uma geração que anda perdida em identidades que ela mesma não consegue sustentar.

No fim, a falsa virtude da dúvida nos pede para sermos tolerantes com a demolição do que Deus estabeleceu, e chama essa tolerância de maturidade. Mas a postura de quem se apoia na revelação e numa razão bem calibrada precisa ser outra. Quando o mundo exigir que fiquemos “neutros” sobre os fundamentos da vida, o nosso papel não é pedir desculpas por ter certezas. É lembrar, com firmeza cordial, que algumas âncoras não foram feitas para serem arrastadas.


Rodomar Ricardo Ramlow é teólogo, professor e criador de conteúdos. Reside em Nova Petrópolis, RS. É casado com Débora, pai de Sophia e Henrique.


Qual é o propósito da minha vida? O que constitui uma vida boa? Como eu me entendo em relação aos outros e ao mundo ao meu redor?

Se você quer entender de onde vem essa cultura que transformou “ser fiel a si mesmo” no valor supremo, o livro que eu recomendaria é A Ascensão e o Triunfo do Eu Moderno, de Carl Trueman. Ele reconstrói, passo a passo, como chegamos a uma sociedade em que a identidade se tornou algo que cada um define por conta própria, e por que isso torna tão difícil falar de uma ordem que não inventamos. Outras indicações sobre fé, cultura e cosmovisão você encontra no menu LIVROS aqui do blog.

O conceito moderno de “eu” foi sendo transformado ao longo dos séculos, influenciando temas como sexualidade, liberdade, autenticidade e política. Uma leitura indispensável para quem deseja compreender as profundas mudanças culturais do Ocidente.


LEIA AQUI O ARTIGO Existe Pensamento Neutro? A Tese Radical de Roy Clouser Sobre Fé e Razão

SIGA nosso Canal no WhatsApp e fique sempre atualizado – SEGUIR AGORA

LEIA MAIS…

LEIA MAIS

O que nossas palavras comunicam sobre Deus aos nossos filhos

Antes de qualquer sermão ou culto, os filhos aprendem sobre Deus escutando o pai e a mãe: como corrigem, como pedem perdão, como respondem a um fracasso. A partir do livro “Converse com seus filhos”, de William P. Smith, este artigo propõe que cada conversa comum dentro de casa já é, sem que percebamos, uma…

Dons: o corpo cresce em amor

Este devocional explora 1 Coríntios 12:4-7, onde Paulo corrige a competição espiritual em Corinto mostrando que a diversidade de dons vem da mesma fonte, o Espírito, o Senhor e Deus. Os dons não existem para autopromoção, mas para o bem comum. O corpo de Cristo cresce não apesar da diversidade, mas por meio dela, quando…

O evangelho cria reconciliação real

Este devocional explora Efésios 2:14-16, onde Paulo descreve Cristo derrubando o muro de inimizade entre judeus e gentios pela cruz. A reconciliação horizontal entre pessoas divididas só é possível porque a reconciliação vertical com Deus já aconteceu primeiro. O evangelho não apenas perdoa o pecado individual: cria um povo novo, unido além de diferenças históricas…


Descubra mais sobre Teologia Missional

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Deixe uma resposta

Um espaço dedicado a explorar a igreja e a teologia a partir de uma perspectiva missional. Aqui, buscamos refletir sobre a missão de Deus no mundo, como a igreja pode viver de forma fiel ao chamado cristão e como podemos aplicar os ensinamentos bíblicos de maneira prática e transformadora em nossa sociedade.

Descubra mais sobre Teologia Missional

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo