Quando um nome surge como “já eleito” antes da votação, a comunidade não discerne. Ratifica. E há algo profundamente errado nisso
SÉRIE: A Escolha de Líderes na Igreja [Artigo 01]
Este é o primeiro artigo de uma série de seis sobre como a igreja escolhe seus líderes. Ao longo das próximas semanas vamos percorrer textos bíblicos, experiências históricas e dilemas práticos que atravessam praticamente toda comunidade cristã organizada. O ponto de chegada será este: não basta que os escolhidos sejam cristãos; é preciso que o próprio modo de escolher seja moldado pelo evangelho.
Cresci dentro de uma igreja que escolhe seus líderes por votação. Desde a juventude, participei de processos que envolviam a indicação de nomes, a composição de presbitérios, a eleição de conselhos, a escolha de representantes para instâncias mais amplas. Vi assembleias de comunidade e vi concílios. Participei como jovem, como membro, como estudante de teologia, como ministro ordenado e como alguém que, ao longo dos anos, foi se envolvendo cada vez mais com a vida institucional da igreja.
E foi observando esses processos por dentro que uma inquietação foi crescendo, uma inquietação que talvez muita gente reconheça, mesmo vindo de denominações e tradições completamente diferentes da minha.
É a seguinte: em muitos desses processos, quando a assembleia finalmente se reúne para votar, a eleição já aconteceu. Não ali, naquela sala, naquele auditório, naquele momento. Aconteceu antes. Nas conversas de corredor. Nas articulações que antecedem a reunião. No nome que já circula como “o natural”, “o mais indicado”, “o que já está praticamente escolhido.” A assembleia, quando se reúne, muitas vezes não discerne, apenas formaliza.
O Nome Que Já Estava Escolhido
Quem já participou de processos como esse sabe como funciona. Há uma vaga a ser preenchida, presidente de comunidade, membro de conselho, presbítero, às vezes até a vaga de um pastor. E muito antes de a comunidade ser convocada a opinar, um nome já aparece como inevitável. Às vezes porque é alguém influente. Às vezes porque tem tempo de casa. Às vezes porque é o único que se apresentou, e ninguém questiona por que é o único.
Há um mecanismo que quase ninguém verbaliza: quando um nome surge como “já eleito” antes da votação, outros possíveis nomes se retraem. Pessoas que poderiam servir bem naquela função olham para o processo, percebem que a decisão já foi tomada sem elas, e escolhem o silêncio. E nem sempre isso ocorre por falta de vocação ou capacidade, mas porque entenderam que competir com o inevitável é criar problema. E ninguém quer ser aquele que criou problema na assembleia. ‘Deixa isso quieto!’
O resultado é uma eleição com candidato único que todos aprovam por unanimidade, e que muitos, no fundo, sabem que não foi realmente uma escolha. Foi a ratificação de algo que já estava resolvido antes de a primeira oração ser feita.
A Velha Natureza no Novo Ambiente
Certa vez, numa pequena comunidade, fui questionado por um membro experiente e antigo a respeito da indicação de um “novato” ao presbitério. A preocupação poderia ser legítima, afinal, é saudável que a comunidade queira líderes maduros e conhecidos. Mas, ouvindo com atenção, ficou claro que a motivação era outra: insegurança, ciúmes e dificuldade em permitir que outros ganhassem espaço. A velha natureza se manifestando onde deveria haver nova criatura, buscando preservar status, poder e influência dentro de um ambiente que prega exatamente o oposto.
E essa é a tensão que atravessa praticamente todo processo de escolha de liderança na igreja: a distância entre o que pregamos e o que praticamos quando é hora de decidir quem ocupa espaços de poder.
Pregamos que liderança é serviço. Mas na hora de escolher, muitas vezes o que opera é lógica de influência. Pregamos que a igreja é de Cristo. Mas na hora de preencher uma vaga, o que funciona são articulações humanas que se parecem muito mais com política partidária do que com discernimento espiritual. Pregamos humildade. Mas a dinâmica da indicação e da eleição frequentemente favorece quem tem mais visibilidade, mais contatos e mais capacidade de se articular nos bastidores.
Paulo escreveu aos coríntios sobre algo muito semelhante. A igreja de Corinto estava dividida em facções: “Eu sou de Paulo”, “Eu sou de Apolo”, “Eu sou de Cefas”, “Eu sou de Cristo” (1 Coríntios 1:12, NVI). A lógica partidária havia entrado na comunidade. As pessoas escolhiam líderes por afinidade pessoal, por carisma, por identificação de grupo, não por discernimento espiritual sobre quem realmente servia ao corpo de Cristo.
A resposta de Paulo é cortante: “Acaso Cristo está dividido? Foi Paulo crucificado em favor de vocês?” (1 Coríntios 1:13, NVI). Ele tinha a faca e o queijo na mão para aceitar a liderança do seu “partido” dentro da igreja. Recusou. Porque entendeu que lealdade incondicional dentro da comunidade cristã pertence a um nome só, e não é o de nenhum líder humano.
Quando o Processo Adoece
Não estou dizendo que toda eleição eclesiástica é corrupta. Não é. Há muitas comunidades que conduzem seus processos com seriedade, oração e respeito. Há assembleias onde o discernimento acontece de verdade, onde a comunidade participa com liberdade e onde o resultado reflete algo mais do que articulação de bastidores.
Mas é preciso ter honestidade para reconhecer que o problema existe, que não é raro e que atravessa denominações. Não é exclusividade de luteranos, nem de presbiterianos, nem de batistas, nem de pentecostais. Onde há estrutura institucional, há risco de que o processo de escolha seja capturado pela lógica do poder, porque o coração humano opera da mesma forma em qualquer organograma eclesiástico.
O que adoece o processo não é a existência do voto. É a ausência de liberdade real antes dele: critérios que nunca são tornados públicos, espaço que nunca se abre para que outros nomes apareçam sem constrangimento, oração transformada em formalidade litúrgica que antecede uma decisão já tomada. E é o silêncio dos que discordam, porque discordar num ambiente que confunde unanimidade com unidade tem custo social alto demais.
A Pergunta Que Abre a Série
Jesus disse aos discípulos algo que deveria estar gravado na entrada de toda sala de assembleia eclesiástica: “Vocês sabem que aqueles que são considerados governantes das nações as dominam, e as pessoas importantes exercem poder sobre elas. Não será assim entre vocês. Pelo contrário, quem quiser tornar-se importante entre vocês deverá ser servo de todos” (Marcos 10:42-43, NVI).
Não será assim entre vocês. O contraste é deliberado. Jesus reconhece que no mundo a liderança funciona por dominação, influência e poder. E diz com todas as letras que na comunidade dele a lógica precisa ser outra.
A pergunta que abre esta série, portanto, é incômoda mas necessária: quando a igreja escolhe seus líderes, ela está operando segundo a lógica de Cristo ou segundo a lógica do mundo que Cristo explicitamente rejeitou?
Nos próximos artigos, vamos olhar para como a Bíblia registra processos de escolha diversos, de Matias a Barrabás, nem todos eclesiásticos, mas todos reveladores do que acontece quando uma comunidade precisa decidir quem ocupa um lugar de importância. Vamos olhar também para o que a história da igreja ensina sobre diferentes modelos, para o que o Novo Testamento exige como qualificação de líderes e para como uma comunidade cristã pode aprender a escolher de um modo que honre aquele que é o verdadeiro cabeça da igreja.
Porque o problema não é apenas quem é escolhido. O problema, muitas vezes, é como se escolhe.
Você já participou de um processo de escolha de liderança na igreja que te deixou com a sensação de que tudo já estava decidido antes? O que sentiu? Deixe nos comentários.
Paulo não queria seguidores. Queria imitadores
O artigo mostrou o que acontece quando a igreja escolhe líderes pela lógica das facções. Sanders mostra o que Paulo propôs no lugar.

A ironia é precisa: a mesma carta que Paulo usa para condenar os partidos de Corinto, “Eu sou de Paulo, eu sou de Apolo”, termina com ele dizendo “sede meus imitadores, como também eu sou de Cristo.” Não seguidores de um líder carismático. Imitadores de alguém que imita Cristo. Sanders percorre o Novo Testamento para mostrar o que isso significa na prática: o caráter que Paulo formou, a estratégia com que discipulou, a coragem com que sustentou autoridade sem buscá-la. Para quem leu este artigo e quer sair do diagnóstico, aqui está o modelo que Paulo deixou e que Sanders reconstrói com rigor bíblico.
A crise não é de processo. É de modelo. Este livro devolve o modelo.
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