Não Basta Escolher Líderes Cristãos: A Igreja Precisa Aprender a Escolher

Artigo 1: A Eleição Que Acontece nos Bastidores

Artigo 2: Quem Substituirá Judas Iscariotes?

Artigo 3: A Preferência da Maioria

Artigo 4: A Igreja Deve Ser Democrática?

Artigo 5: Caráter Antes de Cargo


Este é o último artigo de uma série de seis sobre como a igreja escolhe seus líderes. Começamos pelo candidato único. Passamos pelo sorteio de Matias, pela multidão que escolheu Barrabás, pela pergunta sobre democracia e pelas qualificações bíblicas de caráter. Agora, reunimos tudo e olhamos para frente.

Ao longo desta série, percorremos textos, histórias e perguntas que, juntos, compõem um retrato que muita gente dentro de igrejas reconhece, mesmo que raramente verbalize. Processos de escolha que já chegam à assembleia com o resultado definido. Candidatos únicos que ninguém ousa questionar. Bastidores que operam com mais eficiência do que qualquer oração coletiva. Critérios bíblicos que aparecem nos documentos mas não aparecem na prática. Votações que formalizam o que a articulação humana já decidiu.

A tentação, diante desse retrato, é o cinismo: “a igreja é assim mesmo, não vai mudar.” Ou o ressentimento: “fui prejudicado por um processo injusto e por isso não quero mais saber.” Ambas as reações são compreensíveis. Nenhuma delas é cristã. Porque a igreja pertence a Cristo, e quem pertence a Cristo não se conforma com o que está errado. Trabalha para que mude.

A tese desta série inteira cabe numa frase: não basta que os escolhidos sejam cristãos. É preciso que o próprio modo de escolher seja moldado pelo evangelho.


O Que Aprendemos Até Aqui

O argumento desta série pode ser resumido assim:

A Bíblia não prescreve um único método de escolha de líderes. O que ela prescreve é algo mais profundo: critérios de caráter que devem vir antes de qualquer nome, dependência real de Deus que não pode ser substituída por procedimento humano, e uma compreensão de liderança como serviço que inverte a lógica do poder mundano.

Atos 1 nos mostrou que os apóstolos definiram critérios, oraram e deliberadamente tiraram de suas próprias mãos o controle final da escolha. Barrabás nos mostrou que multidões podem ser manipuladas e que líderes que lavam as mãos são mais culpados, não menos. A história da igreja nos mostrou que nenhum modelo de governo está imune à corrupção. E Paulo nos mostrou que o filtro que deveria vir antes de qualquer processo é o caráter, verificável, público e inegociável.

O que falta agora é responder à pergunta prática: como, concretamente, uma comunidade cristã pode escolher seus líderes de um modo que honre a Cristo?


Sete Princípios Para Processos Que Honrem a Cristo

Não existe receita universal. Cada denominação tem sua estrutura, cada comunidade tem seu contexto, cada momento tem suas circunstâncias. Mas existem princípios que atravessam todas essas diferenças, princípios que nascem da Escritura e que funcionam como critério de avaliação para qualquer processo, em qualquer igreja.

Primeiro: critérios antes de nomes. A comunidade deve discutir o perfil bíblico da função antes de discutir quem vai ocupá-la. Quando o nome aparece primeiro, os critérios tendem a ser ajustados para caber no nome que já existe. 1 Timóteo 3 e Tito 1 não foram escritos para serem lidos como devocional antes da votação. Foram escritos como filtro. Filtro que antecede qualquer indicação.

Segundo: tempo real de discernimento. Processos apressados favorecem quem já estava articulado antes. Uma comunidade que recebe uma lista de nomes na mesma reunião em que precisa votar não está discernindo, está ratificando. É preciso tempo para conhecer os candidatos, verificar reputação, fazer perguntas, orar com seriedade. “Não se precipite em impor as mãos sobre ninguém” (1 Timóteo 5:22, NVI). A pressa, aqui, não é apenas imprudência administrativa. É desobediência bíblica.

Terceiro: liberdade real para discordar. Candidato único não pode significar eleição automática. A comunidade precisa ter a possibilidade real de dizer não sem que isso seja tratado como rebelião, falta de fé ou criação de problema. Onde discordar tem custo social alto demais, o processo já adoeceu, mesmo que formalmente tudo pareça correto.

Quarto: oração que não seja ornamento litúrgico. Há uma diferença enorme entre abrir a reunião com uma oração e conduzir o processo inteiro em atitude de oração. A primeira é formalidade; a segunda é dependência. Os apóstolos em Atos 1 não oraram para que Deus abençoasse a escolha deles. Oraram para que Deus mostrasse a escolha dele. Se a oração nos nossos processos não muda nada no resultado, se votaríamos exatamente da mesma forma com ou sem ela, então não era oração. Era formalidade dispensável.

Quinto: voto sem campanha. Conversas são naturais e até necessárias. O que não é natural, e não deveria ser tolerado, é campanha: promessas, pressão, troca de favores, difamação de concorrentes, articulação sistemática de bastidores para garantir resultado. Quando isso acontece, e quem já viveu processos eclesiásticos sabe que acontece, o processo deixou de ser espiritual e virou político no pior sentido da palavra. A igreja pode usar linguagem de serviço e fé enquanto pratica a mesma lógica de poder que Jesus explicitamente rejeitou em Marcos 10:42-43.

Sexto: transparência e prestação de contas. Liderança cristã não é posse de cargo. É serviço supervisionado. Quem lidera precisa prestar contas a alguém. Precisa de mandatos definidos quando isso fizer sentido para a função. Precisa de avaliação periódica. Precisa de limites claros de autoridade. A perpetuação indefinida no poder, sem prestação de contas real, cria donos de igreja onde deveria haver servos de Cristo.

Sétimo: coragem para dizer não. Líderes maduros, pastores, presbíteros, conselheiros, precisam ter a disposição de vetar candidatos que não atendem aos critérios bíblicos, mesmo quando esse candidato é popular, influente ou o único disponível. Isso exige coragem. Exige disposição para desagradar. Exige a convicção de que proteger a igreja é mais importante do que manter a paz superficial de uma assembleia que prefere não fazer perguntas difíceis. Pilatos sabia que Jesus era inocente e preferiu lavar as mãos. A história não o absolveu por isso.


O Coração do Problema

Seria ingênuo pensar que sete princípios resolvem tudo. Eu sei que não é tão simples. Porque o problema mais profundo não é processual, é espiritual.

O coração humano consegue corromper qualquer método. Um sorteio pode ser manipulado na escolha prévia dos nomes. Uma eleição pode ser manipulada por campanha e pressão. Uma indicação pastoral pode ser manipulada por favoritismo. Uma assembleia pode ser manipulada por medo. Um conselho pode ser manipulado por acordos internos.

A pergunta mais profunda, portanto, não é qual método usar. É que tipo de comunidade espiritual estamos formando. Uma comunidade onde as pessoas buscam cargos para se realizarem pessoalmente, para acumularem influência, para compensarem inseguranças, essa comunidade vai adoecer qualquer processo. Uma comunidade onde as pessoas já se convenceram de que o amor e a aprovação de Deus lhes bastam, onde servir não depende de reconhecimento público, onde encontrar o meu lugar significa também reconhecer o lugar do outro, essa comunidade vai fazer funcionar até processos imperfeitos.

Compartilhar o ministério depende de humildade, espírito de cooperação e uma consciência profunda a respeito de quem é o verdadeiro Senhor da Igreja. Quando isso existe, o método é secundário. Quando isso falta, nenhum método salva.


Uma Igreja Que Escolhe Como Cristo Ensinou

Naquela noite antes de morrer, Jesus se ajoelhou e lavou os pés dos discípulos. Todos eles. Inclusive os de Judas, que o trairia em poucas horas. Inclusive os de Pedro, que o negaria antes do amanhecer. Ele não lavou os pés dos merecedores. Lavou os pés de todos.

E depois disse: “Eu lhes dei o exemplo, para que vocês façam como eu lhes fiz” (João 13:15, NVI).

Esse é o modelo. Liderança que se abaixa. Que serve antes de ser servida. Que não disputa espaço porque não precisa disputar, já encontrou em Cristo a única fonte de identidade que importa.

Uma igreja que forma esse tipo de gente vai escolher bem seus líderes, não porque tenha o método perfeito, mas porque tem o critério certo. E o critério certo não é eficiência, popularidade, disponibilidade ou articulação. O critério certo é semelhança com Cristo.

A série inteira que percorremos, seis artigos, seis perguntas, seis espelhos, gira em torno de uma convicção que eu gostaria de deixar como última palavra: a igreja não precisa escolher entre autoritarismo espiritualizado e democracia secularizada. Ela precisa reaprender a discernir, em comunidade, sob o senhorio de Cristo, com humildade para reconhecer que nenhum de nós é imune à tentação do poder, e com fé suficiente para confiar que aquele que é o verdadeiro Cabeça da igreja não abandonou o processo nas mãos imperfeitas que somos.

Não basta escolher líderes cristãos. É preciso escolher cristãmente os líderes.

E, talvez, a diferença entre essas duas coisas seja a diferença entre uma igreja que se parece com o mundo e uma igreja que se parece com Cristo.

O que você mudaria nos processos de escolha de liderança na sua igreja? O que funcionou bem e o que você gostaria de ver diferente? Depois de seis semanas juntos nessa reflexão, a conversa agora é sua. Deixe nos comentários.

Quando um dos maiores especialistas em liderança cristã do século XX abandonou o prestígio acadêmico para servir pessoas com deficiência intelectual, ele descobriu o que Paulo estava descrevendo em 1 Timóteo 3.

A maioria dos livros sobre liderança cristã ensina o que fazer. Nouwen escreveu sobre o que você é, e sobre o que te move quando ninguém está olhando. Em Nome de Jesus confronta as três forças que destroem líderes silenciosamente, muito antes de qualquer escândalo: a necessidade de parecer relevante, o vício de ser admirado e a sede de controlar. Se você chegou até o fim deste artigo e alguma coisa incomodou, este livro vai nomear exatamente o quê.

Poucas obras sobre liderança custaram tanto ao autor escrever. Isso aparece em cada página.


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